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Canibalismo à francesa: os tupinambás nos primeiros tempos do Brasil


Além de presenciar episódio de antropofagia no Novo Mundo, o calvinista Jean de Léry viveu maus momentos na França cristã do século XVI

Alexandre Belmonte*

Imagem que ilustra livro de Jean de Léry / FBNAcusado de herege, o exemplar calvinista Jean de Léry (1534-1611) descreveu os tupinambás com riqueza de detalhes, do parto ao funeral. O relato virou um verdadeiro best-seller, publicado na Europa, no século dos Descobrimentos. Na edição de maio da Revista de História, a aventura antropofágica vivida pelo homem de letras foi relatada pelo pesquisador Alexandre Belmonte, em Saudades do Novo Mundo. Abaixo, o professor visitante da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, conta mais uma peripécia presenciada por Léry. Desta vez, o episódio se passou na França cristã.

Depois de voltar do Brasil e antes de publicar seu relato História de uma viagem feita à terra do Brasil, Jean de Léry teve mais uma experiência capaz de impactar seus conceitos sobre “selvagens” e “civilizados”. Corria o ano de 1573. A cidade protestante de Sancerre, no centro da França, encontrava-se sitiada pelos católicos. A cidadela perdera sua identidade com a destruição de suas torres e de seu relógio, e com a imposição da fé católica. A destruição do relógio retirou Sancerre de seu tempo: passaram a confundir-se, ali, velhas e recentes histórias de intolerância religiosa, fome e carestia, tabus e violações. Em março iniciou-se a escassez de comida.

Um cavalo morto a tiro de canhão foi comido pela população. “Ele foi esfolado, cortado, arrebatado e comido pelos mais pobres vinhateiros e trabalhadores, os quais relatavam a qualquer um não terem nunca comido carne melhor”. Mesmo acuada pela fome, a população ainda atentava ao prazer gastronômico. Léry é o narrador desses episódios, e dá atenção ao gosto e ao tempero. Em maio começaram a matar cavalos, a vendê-los e comê-los. Entre julho e agosto, disparou o preço da carne de cavalo no famélico comércio de Sancerre. Cães e gatos foram transformados em iguarias, estes últimos condimentados e preparados como se fossem coelhos. Quando não restavam mais nem cães nem gatos, recorria-se aos famintos ratos. Passou-se a comer quase de tudo na Sancerre sitiada: pergaminhos, couro de cintos, sapatos. Até mesmo excrementos. 

E eis que, em fins de julho, a desesperada gastronomia dá espaço ao grotesco. Pratos e tigelas sobre a mesa, a família prepara-se para a ceia. Mas Symon Potard, sua mulher Eugene e uma velha chamada Philippes de la Fuëille são surpreendidos no banquete: o prato principal é o corpo da filha dos Potard, uma menina de aproximadamente 3 anos, morta de fome. Seu corpo franzino foi cuidadosamente cortado nas articulações, salgado, condimentado e cozido. Na panela podem ser vistas as pernas da menina.

O ambiente cheira a vinagre e condimentos. A família e a velha de la Fuëille come as orelhas, a língua, a cabeça, o cérebro e o fígado da criança. Entre os que testemunham o evento está Jean de Léry, deparando-se com o canibalismo pela segunda vez. É claro que se lembra dos tupinambás. A essa altura, considera o ato dos nativos do Novo Mundo uma prática perfeitamente aceitável, pois já compreende seu sentido dentro da cosmovisão e das práticas de guerra tupinambás. A antropofagia da família francesa, entretanto, deixa Léry aterrorizado, ao constatar que o luto pela menina morta de fome é ironicamente acompanhado pelo banquete de seu próprio cadáver. Situação absurda, perturbadora. Em primeiro lugar, porque a família é cristã, e não selvagem. Em segundo lugar, porque o ato extremo é consequência, em última instância, do cerco provocado pelos católicos aos protestantes.

*Alexandre Belmonte é professor visitante da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e autor da dissertação A construção do outro e do si mesmo: vínculos de identidade e alteridade no relato de Jean de Léry, UERJ, 2006.

Disponível em Revista de História

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