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África pré-colonial: África Ocidental


Os países que compõem a subdivisão da África Ocidental, atualmente: Mauritânia, Mali, Níger, Nigéria, Burkina Fasso, Senegal, Gâmbia, Guiné, Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim, Gana, Togo, Benin, Camarões, Guiné Equatorial, São Tomé e Príncipe, Gabão. Ao longo da história, diversos povos viveram nesta região, dentre eles os Haussás, Tapas, Ibos, Ijexás, etc. 

Iniciaremos agora o estudo de vários povos que habitaram a Ocidental conhecida como Iorubalândia. A escolha pelo estudo destes povos se deve à sua significativa presença na diáspora africana para as Américas, e por sua  influência na  formação das  religiões de matriz africana e afro-brasileiras



2.1. Populações do Delta do Níger (Os Yorubás)
  • Golfo da Guiné (Costa da Mina): nome que designava à época da escravidão, a região litorânea que se estende da Libéria, passando pela Costa do Marfim até o Gabão.
  • O topônimo Costa da Mina se deveu ao Castelo de El Mina, localizado no atual território de Gana. 
  • Os Yorubás estão localizados na porção noroeste do continente africano abaixo do Saara ao sul; a sudoeste e sudeste da confluência do Rio Níger com o Benue.
  • Os povos yorubanos eram essencialmente agricultores. 
  • Suas instituições familiares baseavam-se em laços e tradições familiares. 
  • Suas aldeias, habitadas por várias linhagens, tinham governantes escolhidos pela idade ou pela proximidade de parentesco com o grande ancestral comum. 
  • Um grupo pequeno dessas aldeias formava uma cidade-estado que era chefiada por um líder.
  • Esse líder poderia receber títulos de diferentes nomenclaturas, conforme sua atribuição/função na sociedade, ou ainda conforme a cidade-estado a que estava ligado. 
  • Obá, Olu ou Alojá eram os títulos desses governantes. 
  • Cada governante era, em geral, o homem mais rico de sua comunidade. Controlava grande parte das instituições e, sobretudo regulava o mercado, o qual ficava em frente à sua casa, no centro da Aldeia principal. 
2.2. Origens dos Yorubás
Segundo as narrativas orais e historiográficas, a primeira cidade-estado yorubana fora Ifé (ou Ilê-Ifé). À Ifé se seguiram outras grandes cidades-estado como Oyó, Equiti, Ijexá, Ijebu, Savê (Sabê) e Ouidhá (Idah) Egbá e Ondô.

Os povos Haussás, costumam dizer que o povo de Ifé se originou de alguns descendentes de Canaã, da tribo de Nimrod, que teriam sido retirados da Arábia por um príncipe de nome Ya-ruba, o qual teria migrado para a África ocidental, deixando para trás seu povo. 

Outros povos dizem que Odudua, o pai de todos aqueles que depois se chamaram iorubás, era filho de um rei árabe, e que, por resistir ao islã, teria sido expulso pelos fiéis muçulmanos. Segundo essa última narrativa, Odudua, atravessou o Saara, perseguido pelos inimigos, chegou ao Níger, com suas divindades e sua gente; e nas florestas da futura terra dos yorubás, fundara Ilé-Ifê. Contudo, essa genealogia parece ter nascido da confusão do nome Meca, a cidade santa dos muçulmanos, como o de Meko, uma cidade iorubana. 

Outra narrativa, afirma que os primeiros habitantes de Ilê-Ifê vieram das terras dos Nupes ou das terras dos Haussás. A tradição yorubana (inclusive na diáspora americana) afirma que os yorubanos nasceram em Ifé. E nãosó eles, mas também a Terra e os primeiros seres humanos foram criados em Ifé o Umbigo do Mundo.

2.3. A criação do Mundo Mito Fundador de Ilê-Ifé
No início dos tempos, as divindades viviam no Orum (Céu), abaixo do qual havia apenas a imensidão das águas. Olorum, o Deus Supremo, senhor do Orum deu a Oxalá, o senhor das vestes brancas, uma sacola contendo uma porção de terra numa casca de caracol (igbi) e uma espécie de galinha de cinco dedos e ordenou que descesse e criasse a terra... 

Uma das regras importantes era que todo o Orixá que se pusesse atravessar o portal do Orum deveria fazer uma oferenda a Exu, o guardião das cancelas e caminhos. Entretanto, como Oxalá estava preocupado em realizar urgentemente sua tarefa, não se preocupou em cumprir a regra e Exu, mesmo tendo percebido que Oxalá havia esquecido sua sacola com água, não o avisou. No caminho, Oxalá sentiu muita sede, mas não se deteve para tomar água nos riachos e lagos próximos ao Orum. Com a distância, essas fontes ficavam cada vez mais escassas e Oxalá aumentava sua sede, até um momento que não pôde mais resistir e enfiou seu cajado (opaxorô) em uma palmeira, da qual saiu vinho de palma. Oxalá bebeu o vinho de palma abundantemente, ficou embriagado e adormeceu. 

Então, sua rival Oduá (outras versões falam em Odudua irmão e rival de Oxalá) roubou a sacola e usou o pó para criar o mundo antes de Oxalá acordar. Oxalá foi castigado com a proibição de usar produtos do dendezeiro e bebidas alcoólicas; mas, como consolação, recebeu uma argila para modelar os humanos. Mas, como não levou a sério a proibição, continuou bebendo e, nos dias em que se excedia, fazia as pessoas tortas ou mal cozidas. É por isso que os deformados e os albinos são filhos de Oxalá.

Oduá, após pegar a sacola de Oxalá tomou da porção de terra que estava em seu interior e lançou sobre a água. Depois colocou a galinha de cinco dedos em cima da terra. A galinha começou a ciscar a terra, espalhando-a em todas as direções, para muito longe, até o fim do mundo. 

Depois, Oduá mandou o camaleão verificar se o solo era firme. Então, Oduá pisou no chão de Idio, local onde fez sua morada e onde hoje se localiza, em Ifé, seu bosque sagrado. Quando Oxalá despertou da embriaguez e descobriu que o trabalho já havia sido concluído, percebeu o quanto o vinho de palmeira era perigoso. Assim proibiu seus filhos que o bebessem para todo o sempre.

2.4. As fontes e o tráfico
Ao longo do golfo da Guiné, do Gâmbia à atual República dos Camarões, se estende uma região úmida, coberta de florestas sobre a zona costeira do Oceano Atlântico cuja história antiga pela ausência de documentos continua bastante desconhecida. (ver mapa Populações do Delta do Níger)

Os recursos naturais da região antes do ano de 1.500 eram os óleos de palma (Azeite de Dendê), o vinho da palma, o sal, a madeira da qual se retirava o material das casas e cortiças. A agricultura estava voltada para a produção de inhame, banana, arroz: após o século XV, com a chegada de portugueses, passou-se a produzir a mandioca e o milho. A mosca tse-tsé não permitia a criação de cabrito e carneiros para a produção de lã ou qualquer bovino de pequeno porte. O ferro era conhecido de longa data. 

Os habitantes da região do atual Benin eram formados por uma população eminentemente negra. A paisagem dessa região era formada por imensas regiões desertas em certas partes da floresta e era frequentada por mercadores sudaneses que comercializavam a noz de cola e o ouro. Esse metal era encontrado em abundância na região limítrofe da Costa do Ouro e na Cosa do Marfim. 

Esses topônimos foram dados pelos portugueses que batizaram a região também de “Costa  da Malagueta” uma micro-região da atual Libéria; “Costa dos Escravos” a Região do Dahomey (atual Benin) e “Rio dos óleos” a região da embocadura do Rio Niger; essa nomenclatura referia-se aos principais produtos de exportação e câmbio com europeus, tais como fuzis, barris de pólvora, barras de ferro e de cobre, tecidos e miçangas de vidro. 

O ouro foi o primeiro atrativos para os europeus. Os portugueses instituíram na Costa do Ouro, o forte de El Mina e exportaram mais de uma tonelada do produto por ano. Assim, a Costa do Ouro (ou Costa dos Escravos) e a “Rota dos Óleos” eram as principais vias de trânsito desses tráficos. 

Cerca de 50.000 mil escravos dessa região foram transpostos para as Américas no Século XVIII, período do auge do tráfico de escravos. No ano de 1815 o tráfico fora oficialmente abolido. Entretanto, a caça aos habitantes da região não pôs fim definitivo ao tráfico. Os ingleses, que tinham aprisionado a maior parte desses habitantes, foram os mais enérgicos na repressão ao tráfico. O sucesso dessa repressão deveu-se, muito, à fortaleza de sua marinha. 

2.5. Confederação yorubana
  • Localização (atual): Sudoeste da Nigéria e certas regiões do Togo, Gana e do Benin à sudoeste da confluência dos rios Níger e Benué. 
  • Localização (histórica): vizinhos dos povos Hauçás (nordeste) Baribas [Borgu] (noroeste) dos Ibós (sudeste) e Edos-[Benin] (sudoeste).
  • Principais cidades yorubanas: Abeokuta, Ado-Ekiti, Akure, Egbá, Egbado, Ibadam, Ife, Ilexá (Ilesa ou Ijexá) Ijebu-Odé, Ijebu-Igbó, Ilorin, Lagos (atual), Ode itsekim, Ogbomoso, Ondo, Ota, Osogbo, Owo e Oyó. 
  • População: 40 milhões de pessoas (com aproximadamente 250 grupos étnicos, sendo 180 apenas na Nigéria)
  • Quadro religioso (atual): Cristianismo (45%), Islamismo (44%) e religiões tradicionais (Culto aos Orixás) e outros (1%).
Os Yorubás foram caracterizados (antropologicamente) pela unidade linguística em torno do ramo kwa do grupo nígero-congolês. O etnônimo Ioruba originalmente designava apenas o povo de Oió (Oyó), entretanto, hoje ele nomeia vários subgrupos populacionais (acima citado).Assim, na classificação etno-linguística, os Yorubás formam um grupo linguístico que constituem aproximadamente 30% da população total da Nigéria e abarcam cerca de 40 milhões de pessoas. Na diáspora africana nas Américas encontra-se reminiscências yorubanas no Brasil, Cuba, Porto Rico, Trinidad-Tobago e Haiti. 

2.6 Organização Sócio-política-religiosa:
Antes da colonização inglesa, os Yorubás constituíam uma federação de cidades-estado tendo como centro Ilé-Ifé (Ifé) fundada por um chefe guerreiro de nome Oduduwa. 

É difícil estabelecer com exatidão a época dessa migração,  mas a arqueologia estima que ela tenha ocorrido entre os anos 500 a.C e 400 de nossa era. É provável que esse deslocamento tenha ocorrido paulatinamente durante várias gerações. 

Por volta do ano 900 d.c, a cidade-Estado de Ile-Ifé (Ifé) se  auto-proclamou como uma potência dominante de várias cidades que circundavam Ilé-Ifé. Ressalta-se que essas cidades eram portadoras de uma destacada complexidade político-cultural. 

Assim, a cidade de Ifé se converteu no centro cultural e religioso de várias populações que a cercavam, as quais passaram a reconhecer a cidade de Ifé como primaz na emanação de poderio. 

Ifé estendeu sua influência e poderio para povos importantes que ficavam bem ao sul da Nigéria tais como os Igbós e Edos. E cada nova cidade-Estado que passava a integrar a federação iorubana recebia como chefe um Obá, cujo cargo representa uma forma de monarquia hereditária. 

Para se tornar um Obá era necessário que o postulante passasse por um processo iniciático que o tornava um descendente espiritual de Oduduwa. Aliás todos os demais dignitários deveriam passar por rituais de iniciação, posto que as instituições políticas da tradição iorubana são intimamente ligadas às instituições religiosas tradicionais de seu povo. Ambas  sobreviveram sob o governo colonial inglês na Nigéria e continuam a funcionar até nossos dias. 

Seguindo o mito de criação, os descendentes de Odudua foram, então, os fundadores dos primeiros reinos iorubas. Entre esses reinos, que deram origem a outros tantos, estão Owó, Queto, Benin, Savê, Popó, Oió, Ijebu-Odé, Ilexá, Ondô, Aquê, e Ado-Equiti. E por isso que nos rituais de entronização de novos Obás, todas essas cidades-estados reafirmavam suas ligações com Ifé. Paramentos e insígnias deveriam ser enviadas ao Oni de Ifé (Rei de Ifé) para serem consagrados com o Axé, a força vital divina, de Oduduwa.

Ao ascender ao poder, o novo soberano da cidade (Obá) enviava um mensageiro ao Oni para comunicar-lhe a morte do antecessor e pedir-lhe que o confirme como Obá.O Oni, escolhido por um conselho de chefes liderados pelo Ouá, governante dos ijexás, representava tanto a confederação das cidades, quanto as comunidades e, sobretudo, as divindades. Quando o Oni morria, juntava-se aos Orixás. Assim, o Oni não era um simples sacerdote ou ritualista, mas o símbolo da unidade e a cabeça que conduz o corpo político de seu povo. 

Muitas das cidades-estados eram controladas pelos Obás, além de ministros nomeados por nobres, líderes e comerciantes. Outras cidades tinham monarcas poderosos e semi-autocráticos, os quais tinham um controle quase total. Em outras, os Obás eram apenas figuras importantes e deveriam, em ambos os casos, seu poder ao Oni de Ifé. 

O Oni de Ifé detinha os poderes religiosos que confirmavam e sacramentavam a entronização de cada um dos Obás, os quais periodicamente, iram até sua presença para as obrigações rituais que confirmavam seus laços com os Eborás (Sociedade Egugun), ancestrais primevos, violentos e perigosos. Até mesmo o Alafin de Oió, quando assumia o poder, enviava a espada-símbolo de sua realeza (o agadá) a Ifé, para lá receber o Axé de Odudua.

Logo, o poder do Oni é a emanação do poder espiritual dos eborás, maior e mais forte do que qualquer tipo de poder físico. Assim, um Oni, depois de consagrado, passa a ocupar a posição de senhor do Axé (alaxé), imediatamente abaixo dos eborás: e quando morria, o Oni passava a integrar o panteão dos eborás.

Fonte: Projeto Abá - Estudos Africanos e Afro-Americanos - Para estudar a História da África - Universidade Estadual de Goiás

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