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Judeus no Brasil - os cristãos novos

Cristãos-novos chegaram com portugueses no século XVI e se integraram rapidamente à sociedade da época


* Angelo Adriano Faria Assis

O tribunal da Inquisição, num óleo de Goya.
Quem nunca ouviu dizer que não se deve deixar sapato virado ao contrário, roupa pelo avesso, portas de armário abertas, varrer o lixo pela porta da frente de casa, dizer que alguém está “chorando a morte da bezerra” ou apontar a primeira estrela no céu? Estas e outras práticas do cotidiano de tantas famílias de Norte a Sul do país encontram, muitas vezes, associação no judaísmo oculto que era praticado na Colônia. No caso da limpeza das residências, por exemplo, é costume entre os judeus manter sobre o batente da porta de entrada uma mezuzá – pequeno pergaminho contendo trechos da Torá. Por isso, varre-se a casa, por respeito e honra, da porta para dentro, onde o lixo é então recolhido, para que não passe pela mezuzá.

Embora muitos desconheçam, a participação judaica esteve presente no Brasil desde o descobrimento. Entre os navegadores e marinheiros que avistaram as terras brasílicas encontravam-se alguns cristãos-novos, antigos judeus convertidos ao catolicismo. O primeiro de que se tem notícia é Gaspar da Gama, originário de Alexandria, que fizera a viagem de Cabral, mas é provável que não fosse o único.
A história dos judeus sefarditas (originários da Península Ibérica) data da Antiguidade. Em Portugal, os primeiros indícios desta presença remontam ao século VI da Era Cristã. Apesar de problemas pontuais, estavam integrados a essa sociedade, onde encontravam melhores condições de vida. Muitos desses judeus ocupavam cargos públicos, tinham negócios e auxiliavam no desenvolvimento da ciência. Em terras portuguesas, celebravam suas festas e ritos livremente e contavam até com a simpatia de alguns monarcas. Tinham um tratamento muito diferente do que recebiam em outras partes da Europa, onde eram perseguidos, sendo expulsos ou banidos de importantes centros como Viena (1421), Colônia (1424), Augsburgo (1439), Baviera (1442), Morávia (1454), Perugia (1485), Vicenza (1486), Parma (1488), Milão (1489) e Florença (1494).

Esta situação mudou na virada do século XV para o XVI, momento em que os judeus eram de 10% a 15% da população, estimada em um milhão de habitantes. Repetindo o que ocorrera em 1492 na vizinha Espanha, em 1496 D. Manuel (1495-1521) decretou a expulsão dos judeus do reino. Mas, ciente da importância dos cristãos-novos para os interesses lusos, apesar de expulsos, o monarca os proibiria de deixar o reino, ou seja, seriam obrigados a se converter ao cristianismo e transformados em cristãos. Mas seriam cristãos-novos, diferentes dos cristãos de origem, denominados cristãos-velhos. Muitos desses cristãos-novos, embora publicamente fingissem fidelidade à nova religião, não abandonavam sua fé.

A suspeita generalizada de que judaizavam em segredo (criptojudaísmo), ameaçando a pureza católica, funcionaria como um dos pretextos para a instauração do Santo Ofício em Portugal no ano de 1536, tornando os cristãos-novos suas vítimas preferenciais. Acirravam-se, assim, as desconfianças sobre os recém-convertidos, que buscavam locais onde pudessem viver longe das pressões sociais e da Inquisição. Eles tiveram, então, que se espalhar pela Europa, pelo Norte da África, por Angola, Índia, China, Indonésia e Japão. No entanto, mantinham as ligações com a metrópole por meio das redes sociais e de comércio.

Esses cristãos-novos foram fundamentais para os esforços de expansão portuguesa. Muitos dos navegadores e comerciantes que estiveram presentes na estrutura expansionista eram de origem sefardita. Homens de trato, comunicavam-se em latim, português, espanhol, hebraico – sendo, por vezes, letrados em algumas delas – e, não raro, nas línguas dos locais por onde passavam, num tempo em que a maioria das pessoas não dominava a escrita. Eles financiaram as viagens de conquista, colaborando com o conhecimento técnico necessário à construção de embarcações ou à utilização de instrumentos de navegação mais apurados. Atuaram como cartógrafos, negociantes, funcionários da burocracia, ajudaram com capital ou até como religiosos, nas atividades de catequese cristã nos domínios portugueses.
O Brasil foi um dos destinos preferidos desses homens. Já em 1503, um consórcio formado por comerciantes cristãos-novos, sob o comando de Fernando de Noronha, arrendou à Coroa portuguesa o monopólio de exploração do pau-brasil, do comércio de escravos e de outras mercadorias por cerca de dez anos, sob a condição de manterem fortificações no território e de descobrirem novas terras.

A proximidade temporal entre a instauração da Inquisição no reino e o processo efetivo de colonização da América portuguesa a partir da década de 1530 contribuiu para que muitos cristãos-novos que se sentiam ameaçados em Portugal decidissem atravessar o Atlântico em direção ao Brasil, onde participavam da organização política e social existente. Também a falta de um tribunal inquisitorial estabelecido e o crescimento da economia açucareira permitiram que muitos se tornassem senhores de engenho, responsáveis pela plantação, produção, pelo comércio e distribuição do principal produto colonial. Em fins do século XVI, os cristãos-novos já eram donos de boa parcela dos engenhos existentes no Nordeste e ameaçavam os interesses dos cristãos-velhos, incomodados com a concorrência.

Mas esses criptojudeus não se limitavam ao açúcar: integrados na Colônia, eram influenciados e influenciavam a vida e os costumes locais. Eles exerciam funções diversas na política, na administração e na economia, participando, ao lado dos cristãos-velhos, de uma variada gama de atividades. Prova desse bom convívio eram os casamentos com descendentes de destacadas famílias cristãs-velhas. A carência de mulheres brancas para casar tornava as meninas cristãs-novas disputadíssimas. Esses matrimônios mistos funcionavam como prova pública da sinceridade cristã da família recém-convertida e diminuíam a mácula sanguínea dos descendentes, identificados, conforme a presença de sangue judaico, como metade, um quarto, um oitavo de cristão-novo, e assim por diante.

A presença do Santo Ofício no Brasil acabaria por mudar este quadro de relativa harmonia. Durante as visitações da Inquisição ao Nordeste, entre 1591 e 1595 (Bahia, Pernambuco, Itamaracá e Paraíba) e entre 1618 e 1621 (Bahia), vários cristãos-novos seriam insistentemente denunciados. Alguns, inclusive, acabariam enviados para a sede da Inquisição em Lisboa e julgados. No limite, recebiam a pena máxima: relaxados ao braço secular, condenados à fogueira.

As acusações apresentavam um rol extenso e variado de comportamentos vistos como denunciadores da ocorrência do criptojudaísmo vivenciado na Colônia, tais como usar roupas limpas e arrumar a casa às sextas-feiras em respeito ao Shabat; não pronunciar o nome de Cristo; preparar a comida segundo a tradição hebraica, não ingerindo carne de porco ou peixes sem escamas, entre muitas outras práticas. Algumas denúncias davam conta, inclusive, da existência de esnogas – sinagogas clandestinas que funcionaram por mais de três décadas, servindo de ponto de encontro dos criptojudeus da Colônia – em Camaragibe, Pernambuco, e em Matoim, na Bahia.

Com a necessidade de ocultar os costumes judaicos, os lares viraram os locais de resistência por excelência, onde as tradições eram praticadas em família. Nesse contexto, pode-se dizer que o papel feminino tinha destaque. As mulheres exerciam as funções de mãe, professora e rabi, repetindo as histórias do povo hebreu, a prática das orações e dos jejuns, o respeito aos antepassados, orientando as primeiras leituras e advertindo sobre o perigo da Inquisição. Realizavam o judaísmo oculto, adaptado e possível que permitiu sua sobrevivência em tempos de perseguição.

Por sinal, a primeira vítima do Brasil condenada à fogueira pela Inquisição foi uma mulher: a cristã-nova Ana Rodrigues, octogenária acusada de liderar uma família de judaizantes na Bahia, das mais denunciadas durante a primeira visitação. Presa e enviada para Lisboa, morreu no cárcere, mas seu processo continuou. Acabou sendo considerada culpada mais de dez anos depois de sua morte. Seus ossos foram desenterrados e queimados: sinal de que a Inquisição estava de olhos atentos ao que acontecia sob o céu dos trópicos.

* Angelo Adriano Faria de Assis é professor da Universidade Federal de Viçosa e autor da tese “Macabéias da Colônia: Criptojudaísmo feminino na Bahia – Séculos XVI-XVII” (UFF, 2004).


Colonizadores da América

** Leonardo Dantas Silva

Expulsos do Recife, judeus fundaram uma comunidade na cidade que hoje se chama Nova York

Em 5 de fevereiro de 1638, Manuel Mendes de Castro, cristão-novo natural de Portugal, também chamado de Manuel Nehemias, chega ao Recife desejando criar uma colônia agrícola com 200 judeus, “entre ricos e pobres”, no Nordeste do Brasil. Seus planos não deram certo, conforme cartas do conde João Maurício de Nassau ao Alto Conselho, datadas de 19 de março e 23 de maio do mesmo ano, nas quais observa que “em vez de se encaminharem para o seu destino, aqui se dispersaram e cada um tomou o seu caminho tendo falecido o chefe”.

Em 1635, com o domínio holandês consolidado na região, muitos judeus atravessaram o Atlântico para viver em Pernambuco, onde a comunidade do Recife mantinha a primeira sinagoga das Américas e era reconhecida em diversos lugares do mundo.

Antes disso, alguns cristãos-novos [judeus obrigados a se converter ao catolicismo a partir de 1497] já haviam se instalado na região. Em 1542, Diogo Fernandes e Pedro Álvares Madeira receberam terras nos arredores do Recife e logo montaram o Engenho Camaragibe. Em pouco tempo, outros cristãos-novos também se tornaram donos de propriedades açucareiras, mercadores e até mesmo rendeiros na cobrança dos dízimos ou responsáveis por empréstimos. Entre esses pioneiros destacava-se o português James Lopes da Costa, que virou proprietário do Engenho da Várzea em 1591. De volta à Europa sete anos depois, ele se fixou em Amsterdã, “a Jerusalém do Ocidente”, onde fundou a primeira sinagoga daquela cidade, a Bet Yahacob (Casa de Jacob).

Em terras nordestinas, uma colônia judaica começou a se formar com a chegada dos holandeses. Com suas atenções voltadas para a América portuguesa, as Províncias Unidas dos Países Baixos, lideradas pela Holanda, criaram a Companhia das Índias Ocidentais (1621), empresa formada pela fusão de pequenas associações capitalistas. Já em 1624 invadiram a capital da Bahia de Todos os Santos, mas foram expulsos pelos luso-brasileiros com o auxílio da esquadra do rei da Espanha. Seis anos mais tarde, atraídos pela próspera produção dos engenhos de açúcar da região pernambucana, aportaram nas costas da capitania com 65 embarcações e 7.280 homens. Desse período até 1654, a área que hoje fica entre a foz do Rio São Francisco e o Maranhão era conhecida como Brasil Holandês.

Como a tolerância religiosa estava garantida nesses novos domínios, espanhóis e portugueses, católicos ou judeus, não eram “molestados ou sujeitos a indagações em suas consciências ou em suas casas particulares”, conforme prescrevia o Regimento do governo das praças conquistadas ou que foram conquistadas concedido pelos Estados à Companhia das Índias Ocidentais, datado de Haia, 13 de outubro de 1629. Por isso, Pernambuco acabou se tornando uma terra prometida para a população judaica originária de Portugal (os sefarditas) e de alguns poucos migrados da Polônia e da Alemanha (askenazins). No Recife, o grupo aumentava a cada dia, e a cidade já não tinha espaço para acomodar tantos negociantes. A solução veio com a compra de um terreno pelo judeu português Duarte Saraiva, mais conhecido como David Senior Coronel. A área ficava junto à Porta de Terra, no caminho de Olinda, e media oitenta pés de comprimento e sessenta de largura (24,34 m x 18,30 m). Rapidamente, outros lotes nas imediações também foram arrematados por ricos negociantes da comunidade.

Nesse pedaço da cidade, chamado de Rua dos Judeus (Jodenstraat), funcionou a primeira sinagoga das Américas. A Kahal Kadosh Zur Israel, ou Santa Comunidade o Rochedo de Israel, fora criada por iniciativa de David Senior Coronel antes de 1636. Seu nome talvez fosse uma referência à topografia local. Na mesma época, o reverendo calvinista Joannes Baers (1580-1653) dizia que “o Recife é um arrecife”. No templo judaico, o célebre português Isaac Aboab da Fonseca (c.1605-1693) exerceu seu rabinato. Bisneto do último Gaon de Castilha (autoridade máxima no ensino e na interpretação da Lei), ele saíra de sua terra natal – o distrito de Viseu, na Beira Alta – ainda criança, passando por França, Holanda e Brasil, retornando em seguida a Amsterdã, onde foi responsável pela construção da Grande Sinagoga Portuguesa, inaugurada em 1675.

Até 1644, o rabino Aboab da Fonseca e os judeus da colônia desfrutaram de grande tolerância e prosperidade. Porém, com o retorno do conde João Maurício de Nassau aos Países Baixos, em maio daquele ano, as coisas começaram a mudar. Em 13 de junho do ano seguinte, os representantes dos proprietários de terra luso-brasileiros iniciaram um movimento para expulsar os exércitos da Companhia das Índias Ocidentais. A reação ficou conhecida como Insurreição Pernambucana. Dois meses após a deflagração dos conflitos, eles já haviam conquistado vitórias no Monte das Tabocas, na Casa Forte e no Cabo de Santo Agostinho. Com a cidade do Recife isolada, cerca de oito mil pessoas ficaram sem qualquer acesso aos alimentos produzidos na zona rural. A fome era tal que até ratos foram consumidos pela população.

A ajuda da Holanda demorou a chegar. Somente em 22 de junho de 1646 os barcos Gulden Valk e Elizabeth aportaram em Pernambuco, trazendo soldados e comida. Com a derrota nas batalhas dos Montes Guararapes (1648 e 1649), os holandeses tiveram que depor as armas em 26 de janeiro de 1654. Cerca de 400 judeus moradores do Recife e de Maurícia (a ilha de Antonio Vaz) voltaram para os Países Baixos. Outros permaneceram pelas Américas, fundando novas colônias em ilhas do Caribe e na América do Norte. Um desses grupos saiu no navio Valk e fez uma primeira escala na Jamaica, onde acabou prisioneiro dos espanhóis. Depois de conseguir escapar com o apoio dos franceses, rumou para Nova Amsterdã a bordo do barco Sainte Catherine. Na nova terra, vinte e três adultos e crianças criaram a primeira comunidade de judeus da cidade que mais tarde ganharia o nome de Nova York.

Na capital de Pernambuco, a velha Rua dos Judeus, agora Rua do Bom Jesus, continuou guardando as memórias daqueles pioneiros. Desde 4 de setembro de 1998, os prédios de número 197 e 203 foram transformados, por um decreto do prefeito Roberto Magalhães Melo, em imóveis de utilidade pública. E voltaram a abrigar o Arquivo Judaico e a antiga sinagoga Zur Israel.

** Leonardo Dantas Silva é membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, consultor do Instituto Ricardo Brennand e autor do livro Holandeses em Pernambuco – 1630-1654 (Recife: Instituto Ricardo Brennand, 2005).


Disponível em Revista de História - Primeiro Artigo - Segundo Artigo

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