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Relações de trabalho: o conceito de trabalho

Ora bolas
Não me amole
Com esse papo
De emprego, uuuuu
Não tá vendo
Não tô nessa
E o que eu quero é
Sossego... Sossego
(Composição: Tim Maia [1942-1998], 1978). n


Certamente você já ouviu essa música sendo cantarolada por aí, ela expressa uma opinião sobre o trabalho. Por que será que o autor diz que não quer saber de emprego, consequentemente, de um trabalho ou ocupação? O que significa o trabalho para ele? Acreditamos que a realidade hoje seja diferente. Talvez uma questão importante que ocupa grande parte do tempo dos jovens na atualidade seja a busca por um emprego, para, através deste, poder conquistar dignidade e respeito entre seus familiares e/ou comunidade, adquirir mercadorias e produtos que julgue necessário, entre tantas outras coisas que o trabalho proporciona. Para tanto, empenha-se em um longo período de preparação.

Entretanto, os seres humanos vivem uma contradição, tanto podem satisfazer-se pelo trabalho conquistando seus objetivos, quanto o trabalho pode significar sofrimento, cansaço, a monotonia das atividades repetitivas ou a exploração de suas capacidades físicas e intelectuais. 

Podemos pensar o que se entende por trabalho? Sempre foi da forma como é realizado hoje? Quais os significados que o trabalho vem adquirindo no decorrer da história? Para as sociedades atuais, qual a importância do trabalho?

O que é o trabalho?

Parece tarefa fácil definir o que significa o termo trabalho. Entretanto, quando nós iniciamos essa atividade, percebemos a complexidade do conceito, que pode ser visto sob vários prismas e adquirir significados diversos, desde o uso cotidiano, quando se fala “o trabalho da máquina escavadeira” ou “a mulher entrou em trabalho de parto,” até explicações filosóficas, que procuram entender as dimensões do trabalho para o homem e para a vida em sociedade.

A própria palavra trabalho não é algo que tenha uma definição clara. Em quase todas as línguas européias existem mais de uma definição, em grego tem uma denominação para esforço e outra para fabricação. Em latim existe a separação entre labore, a ação, e operare, que corresponde à obra. Em outras línguas existem pelo menos duas denominações ligadas à realização de um trabalho, por exemplo, em francês existe a diferença entre travaillere e ouvrer; trabajar e obrar em espanhol como no inglês labour e work.

Em nossa língua, a palavra trabalho originou-se do latim tripalium, que era um instrumento agrícola utilizado pelos romanos para bater o trigo, as espigas de milho ou o linho. Com o tempo, tripalium foi relacionado com instrumento de tortura, juntamente com o verbo Tripaliare, que signifca torturar. Desta forma, em português, a palavra originou-se vinculada às idéias de padecimento, sofrimento, esforço, laborar e obrar.

Na Filosofa, o conceito de trabalho é visto como a expressão das forças espirituais ou corporais em atividade, tendo em vista um fim que deve ser alcançado. Mesmo que não se produza nada imediatamente visível (trabalho intelectual) como um resultado exteriormente perceptível, um produto ou uma mudança de estado (trabalho corporal), pode existir uma separação entre o trabalho intelectual e o braçal, e essas duas formas de trabalho encaixam-se nesta definição.

Mas será que podemos separar trabalho intelectual e trabalho corporal? O pedreiro não utiliza inteligência e raciocínio para erguer uma parede de tijolos? O escritor não tem desgaste físico ao escrever um livro? Para pensadores, como Karl Marx (1818-1883), é por meio do trabalho que o homem modifica a natureza e o mundo para satisfazer as necessidades humanas (pessoais ou sociais) e assim transformar a natureza em objetos de cultura, ou seja, ao mesmo tempo em que a natureza é transformada, o mesmo ocorre com o homem. 

Saibamos que, para os filósofos que compartilham do pensamento de Marx, o que distingue o trabalho humano do dos animais é que naquele há consciência e intencionalidade, enquanto os animais trabalham por instinto, sem consciência. Outra característica do trabalho humano é que ele expressa a liberdade humana, visto que não podemos ser programáveis como um robô, podemos realizar as tarefas de formas variáveis e até nos realizarmos nelas.

Desta forma, na linguagem diária não parece haver diferenças quando utilizamos este termo ou conceito, é na linguagem científica que os significados tornam-se mais complexos. É isto que vamos buscar entender neste Folhas.

Documento 1
Karl Marx
 
Antes de tudo é um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma força natural. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a Natureza externa a ele, ao modificá-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potências nela adormecidas e sujeita o jogo de suas forças a seu próprio domínio. Não se trata aqui das primeiras formas instintivas, animais, de trabalho. 

O estado em que o trabalhador se apresenta no mercado como vendedor de sua própria força de trabalho deixou para o fundo dos tempos primitivos o estado em que o trabalho humano não se desfez ainda de sua primeira forma instintiva. Pressupomos o trabalho numa forma em que pertence exclusivamente ao homem. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos favos de suas colméias. Mas, o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. No fim do processo de trabalho obtém-se um resultado que já no início deste existiu na imaginação do trabalhador, e, portanto, idealmente. Ele não apenas efetua uma transformação da forma da matéria natural: realiza, ao mesmo tempo, na matéria natural seu objetivo, que ele sabe que determina, como lei, a espécie e o modo de sua atividade e ao qual tem que subordinar sua vontade. E essa subordinação não é um acontecimento isolado. Além dos órgãos que trabalham, é exigida a vontade orientada a um fim, que se manifesta com atenção durante todo o tempo de trabalho, pelo próprio conteúdo e pela espécie e modo de sua execução, atrai o trabalhador, portanto, quanto menos ele aproveita, como jogo de suas próprias forças físicas e espirituais. (MARX, 1985 [1867], pp. 149-150).







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