África: da natureza bruta à humanidade liberada *


J. Ki  Zerbo **

A África e a Ásia, atualmente colocadas na periferia do mundo tecnicamente desenvolvido, estavam na vanguarda do progresso durante os primeiros 15.000 séculos da história do mundo, desde o australopiteco e o pitecantropo. De acordo com os conhecimentos de que dispomos atualmente, a África foi o cenário principal da emergência do homem como espécie soberana na terra, assim como do aparecimento de uma sociedade política. Mas esse papel eminente na Pré-História será substituído, durante o período histórico dos dois últimos milênios, por uma “lei” de desenvolvimento caracterizada pela exploração e pela sua redução ao papel de utensílio.

A África, pátria do homem?
Embora não haja certeza absoluta a esse respeito – pelo fato de a história da humanidade continuar obscura desde as origens, de a história subterrânea não ter sido inteiramente exumada, de as escavações estarem apenas no começo na África e de a acidez do solo devorar muitos restos fósseis –, as descobertas feitas até aqui já classificam este continente como um dos grandes, senão o principal berço do fenômeno de hominização. Isso é verdade já na fase do queniapiteco (Kenyapithecus wickeri – 14 milhões de anos), que alguns consideram o iniciador da dinastia humana. O ramapiteco da Ásia é apenas uma variedade que conseguiu alcançar a Índia a partir da África. Mas isso se verifica sobretudo com o australopiteco (Australopithecus Africanus ou afarensis) que é incontestavelmente o primeiro hominídeo, bípede explorador das savanas da África oriental e central e cujas moldagens endocranianas revelaram um desenvolvimento dos lobos frontais e parietais do cérebro, testemunhando já um nível elevado das faculdades intelectuais. Em seguida, temos os zinjantropos e a variedade que tem o tão prestigioso nome de Homo habilis. São os primeiros humanos a representarem um novo salto na ascensão para o status de homem moderno.

Vêm depois os arcantropos (pitecantropos e atlantropos), os paleantropos ou neandertalenses e, finalmente, o tipo Homo sapiens sapiens (homem de Elmenteita no Quênia, de Kibish na Etiópia), cujas características, frequentemente negroides, foram observadas por muitos autores no período Aurignaciense Superior. Quer sejam policentristas ou monocentristas, todos os estudiosos reconhecem que é na África que se encontram todos os elos da corrente que nos liga aos mais antigos hominídeos e pré-hominídeos, incluindo as variedades que aparentemente ficaram no estágio de esboço do homem e não puderam empreender a arrancada histórica que permitiu chegar à estatura e ao status de Adão. Além disso, é na África que se encontram ainda os “ancestrais”, ou melhor, os considerados primos do homem.
Segundo W. W. Howells, “os grandes macacos da África, o gorila e o chimpanzé estão realmente mais próximos do homem do que qualquer um dos três em relação ao orangotango da Indonésia”. E não sem motivo! A Ásia em suas latitudes inferiores e sobretudo a África, em virtude de seu notável mergulho no hemisfério sul, escapavam das desanimadoras condições climáticas das zonas setentrionais. Assim, durante os cerca de 200.000 anos do Kagueriano, a Europa, coberta por camadas de gelo, não oferece nenhum vestígio de utensílios paleolíticos, enquanto a África, no mesmo período, apresenta três variedades sucessivas de pedras, talhadas segundo técnicas em evolução. De fato, as latitudes tropicais beneficiavam-se na época de um clima “temperado” favorável à vida animal e a seu desenvolvimento. Se quisermos detectar as causas do aparecimento do homem, temos de levar em conta, em primeiro lugar, o meio geográfico e ecológico. Em seguida é preciso considerar a tecnologia e, por fim, o meio social.

O texto faz parte da coleção História Geral da África, disponível em sua íntegra no site do Ministério da Educação.
* Site do Ministério da Educação - download da obra, clique aqui!


** Editor da obra Metodologia e pré-história da África - Ministério da Educação.



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