Economia da Borracha na Amazônia: dos primórdios até 1920

"A Ambição que gerou a conquista, a conquista que gerou o extrativismo onde os caudilhos fixaram suas leis homicidas, o extrativismo que gerou a súbitas fortunas de aventureiros dos quatro cantos.Era o Eldorado,o esplendor de uma selvagem nobreza dos trópicos cujos cenários e costumes foram importados de Inglaterra,França e Itália".(Glauber Rocha,Amazonas Amazonas,1966)
A presente pesquisa trata de um período de grande importância para a região Amazônica, com grandes repercussões socioeconômicas, não só em nível regional, mas em todo o país, que sentiu seu impacto tanto no apogeu quanto do declínio.Vale salientar que o Brasil dependia da Amazônia para a obtenção das libras esterlinas, moeda dominante na época, necessária à manutenção do seu comércio internacional, ao pagamento do serviço de sua dívida externa e ao alívio orçamentário, que permitiu o embelezamento do Rio de Janeiro, capital na época. A arrecadação da Amazônia permitiu também a construção das estradas de ferro do Centro-Sul, a implantação de novas instalações portuárias e, por incrível que pareça, permitiu a manutenção dos preços do café (claro que os livros de história não abordam esse fato; jamais a região Sudeste iria querer ficar "submissa" a região dita selvagem). Segundo Antônio Loureiro (a Grande Crise, 2ª Edição, 2008), "São Paulo era a locomotiva na época, mas a Amazônia é que lhe fornecia os trilhos e o combustível necessários às suas caldeiras."

Primórdios

A borracha já era usada pelos povos pré-colombianos desde as épocas mais remotas, e uma das facetas mais características da civilização Teotihuacan (300 a.C. a 600 d.C.) foi o jogo ritualístico com bolas de caucho, que se espalhou por todo o continente, chegando até a Amazônia, no qual os vencedores, na sua versão centro-americana, eram imolados ao sol como Prêmio. Por isto o seu uso não passou despercebido aos primeiros cronistas espanhóis, entre os quais Tomás de Torquemada e Bernardino Sahagún, que a citaram, ainda nos séculos XV e XVI, quando dos seus contatos com os povos da América Central e do México.

Dentro da linha cultural luso-brasileira coube ao carmelita frei Manuel da Esperança a sua primeira descrição. Destacado para receber as missões jesuíticas espanholas do solimões, estabelecidas pelo padre Samuel Fritz, não foi feliz neste objetivo, mas ali observou, entre 1690 e 1701,a manipulação do látex pelos omáguas, em seus objetos utilitários. No século XVIII, o sábio francês Charles Marie de La Condamine, em 1736, descreveu as suas primeiras experiências com a goma elástica e a sua aplicação pelos nativos da Amazônia para diversos fins, como na fabricação de diversos utensílios de uso cotidiano, como sapatos e garrafas, ou no revestimento de tecidos. Mais tarde, em 1745, no Relato Abreviado de uma Viagem feita ao Interior da América Meridional informava que os "portugueses" da Amazônia fabricavam seringas sem êmbolos, trabalho aprendido no seu trato com os cambebas. Estas seringas nada mais eram que as peras de borracha usadas, até hoje, como duchas ginecológicas.

Bolas, borrachas de apagar, sondas (algalias), tecidos para cintos, ligas e suspensórios, sacos e encerados e galochas foram as primeiras utilidades da borracha a entrar nos mercados europeu e norte-americano, iniciando uma procura mais ou menos intensa da matéria-prima no começo do século XIX. Nesta época, a produção concentrava-se na região em torno de Belém e nas ilhas do arquipélago de Marajó, onde havia uma florescente indústria de exportação de milhares de galochas e de sapatos impermeabilizados, movimentando economicamente o seu porto. Os sapatos de borracha eram bem aceitos no mercado norte-americano, e os jornais daquele país comumente publicavam reclames oferecendo partidas desse artigo nos seguintes termos.

"A borracha chegou aos USA e,com o entusiasmo tão característico dos americanos, todos querem um par de sapatos de borracha"¹
¹ Cit.por Tocantins,Leandro - Amazônia,natureza,homem e tempo,Editora Conquista,Rio de Janeiro,1963.

Para que a aplicação industrial da borracha viesse a ocorrer foram necessários, no entanto, investigações e pesquisas que, finalmente, permitiram tornar o produto mais estável, não-vulnerável, por exemplo, às alterações do ambiente. Seu uso foi ampliado a partir da Vulcanização, tratamento com enxofre e calor feito por Charles Goodyear (1839), que promovia maior durabilidade das qualidades elásticas do látex. Por toda a segunda metade do século, ampliou-se cada vez mais o uso da borracha.

Antes mesmo da ampla vulgarização do automóvel no início do século XX, o uso de luvas de borracha foi uma importante contribuição para a assepsia médica. Preservativos sem costuras longitudinais se difundiram na Inglaterra Vitoriana, facilitando o controle da natalidade e da transmissão de doenças venéreas. Bernard Shaw referiu-se a tal proteção de borracha como a maior invenção do século XIX.

Uma Nova Matéria-Prima dos Trópicos

O crescimento da demanda, os preços altos e a fuga de braços para a extração, foram na mesma época percebidos pelo governador do Pará que, num documento oficial de 1854, censurava a absorção crescente da mão-de-obra no fabrico da borracha, em detrimento da produção de bens de consumo, que já começavam a merecer a importação de outras províncias. Em 1852, segundo relatório de Tenreiro Aranha, primeiro governador da Província do Amazonas, as forças econômicas estavam deixando algumas atividades agrícolas e industriais, implantadas no período colonial, para se dedicar ao extrativismo. O Amazonas, até 1820, tinha alguma agricultura, especialmente algodão, café, tabaco, anil, guaraná e cacau, além de atividade industrial, como cordoarias, olarias, fábricas de sabão, e de panos de algodão e pequenos estaleiros. Mas Tenreiro Aranha se queixava que as gentes
"Dividida em bandos, que todos os anos iam às grandes praias, com excessos e bacanais, fazer a destruição dos ovos de tartaruga e o fabrico das manteigas, ou para os matos, com maiores riscos e privações, extrair os produtos espontâneos, no que gastavam mais da metade do ano".²

² Cit.em.Loureiro,Antonio.O Amazonas na época imperial.Manaus,1989.
A Guerra da Borracha

Entre 1877 e 1879,o nordeste brasileiro sofria uma das piores secas da sua história. Somente do Ceará, mais de 65.000 pessoas partiram para a Amazônia acossados pelo flagelo natural e pela crise da economia agrária. Esse contingente humano vai servir de mão-de-obra nos seringais, avançando a fronteira do extrativismo. Em pouco tempo, a maioria desses cearenses entra pelo rio Purus, ocupando zonas ricas em seringueiras. No final da década estarão no Acre, território reivindicado pela Bolívia, Brasil e Peru.

Os bolivianos, impotentes para impedir a invasão brasileira, associam-se a grupos econômicos europeus e norte-americanos, fundando o Bolivian Syndicate, que se encarregaria de garantir o domínio boliviano no território e explorar os recursos naturais pelo prazo de dez anos. Os empresários brasileiros decidem enfrentar a ameaça apresentada por tão poderosa associação.

Em maio de 1899,aproveitando a madrugada,o navio de guerra norte-americano Wilmington parte do porto de Belém e ilegalmente navega o rio Amazonas acima,rumo ao Acre.O navio é interceptado perto de Manaus e o governo brasileiro protesta junto ao governo dos Estados Unidos,provocando uma deterioração nas relações dos dois países.No dia 14 de junho de 1899,com o apoio de políticos e empresários amazonenses,o aventureiro espanhol Luiz Galvez Rodrigues de Aria,à frente de um exército de boêmios e artistas de teatro,ocupa o território e funda o Estado Independente do Acre,sendo deposto no final do mesmo ano por uma flotilha da marinha brasileira.Era uma demonstração,um tanto burlesca,é certo,das intenções do empresários amazonenses.

No dia 6 de agosto de 1902,comandando um exército de guerrilheiros recrutados entre seringueiros,o jovem Plácido de Castro,gaúcho de São Gabriel,entra na cidade de Xapuri e,após prender o intendente boliviano,Juan de Dios Barrientos,proclama novamente o Estado Independente do Acre.Nos próximos meses,esse estrategista talentoso,com homens de pouca instrução militar,moverá uma guerra contra o exército boliviano,criando uma situação de fato naqueles territórios cobiçados.O governo brasileiro,temendo a ampliação do conflito,manda uma poderosa força militar,sob o comando do general Olímpio da Silveira,o mesmo que derrotara os rebeldes de Canudos e mandara degolar os prisioneiros,para ocupar o Acre,obrigar Plácido de Castro a depor as armas e levar a questão para a mesa diplomática.

A Bolívia pensou em reagir novamente quanto a tomada do território acreano, mas antes que ocorresse alguma batalha significativa, o Barão do Rio Branco intermediou diplomaticamente propondo um acordo entre o Brasil e a Bolívia, que ficou conhecido como o Tratado de Petrópolis. Ambos os países assinaram esse tratado em 21 de março de 1903.Nesse tratado a Bolívia concordava em vender o território de 191.000 km²,para o Brasil,pelo preço de dois milhões de libras esterlinas.

O Começo de uma Era de Riquezas

Em meados do século XIX,após os anos de pesadelo vividos com a Regência,dois acontecimentos indicavam aos habitantes da Amazônia que eles estavam vivendo um novo tempo,com estabilidade política e progresso econômico.Para uma região cansada de tanta agitação política,era como poder respirar sossegado.O primeiro acontecimento foi a criação da Companhia de Navegação e Comércio do Amazonas,sob a iniciativa do Barão de Mauá.As linhas regulares foram iniciadas em 1852,com três pequenos vapores,intensificando o comércio entre as duas províncias brasileiras e o Peru.

O segundo acontecimento,de algum modo consequência do primeiro,foi o decreto Imperial abrindo o rio Amazonas ao comércio de todas as nações,assinado em 1866.

O cosmopolitismo do "ciclo da borracha",face e sinal de uma triste alienação,parece algo forçado,produto de um salto brusco.A Amazônia,na historiografia esquemática que se escreve sobre ela,parece ter experimentado um vigor inesperado que a retirou do silencioso passado colonial,com suas vilas de poucas casas,para um ritmo trepidante e voraz.Uma nova psicologia obrigava as elites a já não se satisfazerem com a vida pacata e provinciana.O comércio da borracha vinha proporcionar inquietudes inéditas.

Evidentemente,essa concepção é um tanto folhetinesca,mas não deixa de ter um sabor de época,refletindo a rapidez com que essa transformação da superestrutura realmente aconteceu.O sabor do folhetim nos mostra o quanto o valor do látex era capaz de deslizar até os mais remotos pensamentos,restaurando os mores,ampliando os costumes.Cada salto na cotação da bolsa de Londres que a borracha sofria era uma erupção na placidez provinciana.Passo a passo,o enriquecimento conjurava o marasmo e representava uma conquista do refinamento civilizado.Concretamente,as circunstâncias não passavam de um furor do momento.Mesmo quando eram cômicas ou trágicas.

Os Componentes Humanos da Sociedade do Látex

As personalidades mais representativas do "ciclo da borracha" são predominantemente aventureiras,metropolitanas e românticas.Para além da diferença e nuanças psicológicas,a vibração e o espírito de modernidade as tornam agressivas.O jovem coronel-engenheiro Eduardo Ribeiro governando o Amazonas durante a nascente República,movimentando um fabuloso erário público,sonha com uma Manaus imensa,urbanizada e próspera,como uma Paris dos Trópicos.

O também jovem comandante Plácido de Castro,ex-militar e ex-maragato,homem de coragem e caudilho eficiente,promove uma guerra popular no território acreano,valendo-se de uma frente única de seringueiros e seringalistas,sonhando com o fim da monocultura e com uma sociedade justa e liberta das manobras do imperialismo.

Ermanno Stradelli,um autêntico conde italiano,poeta e etnólogo por conta própria,troca o seu palácio piacentino de Borgotaro pelas malocas indígenas do Amazonas,levantando um rico e precioso acervo literário e etnográfico.

A Amazônia e a Administração Federal

De 1850 a 1860,a borracha em pélas atinge o primeiro lugar na pauta de exportação,para crescer e devorar as outras atividades e instaurar um período de sensacionalismos.Quando veio a Independência,os agentes econômicos do Grão-Pará e Rio Negro sofreram as consequências da ordem imperial,arrogante e centralizadora.Com a borracha,viriam os ideais do federalismo e a classe dominante regional,no alvorecer da República,entrega-se a si mesma na certeza de que o futuro estava garantido pelo monopólio dahévea.O golpe militar de 15 de novembro surpreende a Amazônia nesse sonho.Instalam-se governos provisórios no Pará e Amazonas,porque o novo regime não confiava naqueles políticos enfatuados que mais pareciam aristocratas.

A República nomeou sucessivos interventores até ter certeza de que a Amazônia não corria o risco de se transformar numa nova Vendéia.E instalaram alguns militares no poder,já que eles aparentemente encarnavam o ideal do progresso positivista,rápido e regenerador,inexistente nos políticos locais,que não sabiam aproveitar a capacidade da economia da borracha para gerar divisas em libras esterlinas,tão necessárias ao equilíbrio do comércio internacional o Brasil e para dar elasticidade ao orçamento federal,permitindo as reformas urbanas do Rio de Janeiro,a construção das estradas de ferro no Centro-Sul e as ampliações das instalações portuárias da capital e de Santos.

Se as incertezas provocadas pela chegada do regime republicano iria,no Sul,provocar dissabores aos cafeicultores,na Amazônia,a estabilidade da borracha manter-se-ia firme,o mesmo não podendo ser dito da política.A desconfiança dos republicanos em relação aos grupos políticos regionais provocará um permanente atrito,sobretudo por barrar os especuladores locais do caminho do erário público.Eduardo Ribeiro,governador indicado para o Amazonas,por exemplo,sofrerá,ao longo de seus dois períodos de governo,vigorosos e baixos ataques,até que,em 1900,o amazonense Silvério Nery,representante dos poderosos extrativistas,assume o poder,restabelece antigos sistemas administrativos e torna obrigatório o beneficiamento sumário da borracha em Manaus.

A velha letargia dos tempos de D.Pedro II é sacudida pelo novo compasso do mercado internacional.Os extrativistas não mais se sentiam tolhidos pela impossibilidade tecnológica de domar a região,nem tampouco pelas limitações de seu saber.Invadiram a selva,pois para isso bastava um pouco de vivência,subordinado-se ao caprichos da hévea.Regiões inteiras,antes vedadas pelas doenças,percorridas apenas por índios nômades e penetradas por solitários aventureiros,foram invadidas por caçadores em busca da seringa.A ideologia do Far-West enfrentava os insetos e os males estranhos e mortais.As libras esterlinas não escolhiam grau de instrução ou escolaridade,o látex redimia a ignorância.O colono analfabeto assume ares de cosmopolita,torce o nariz para a antiga vida tradicional.

Belle Époque Tropical

Os coronéis da borracha,enriquecidos na aventura,resolveram romper a órbita cerrada dos costumes coloniais,a atmosfera de isolamento e tentaram transplantar os ingredientes políticos e culturais da Velha Europa,matrona próspera,vivendo numa época de fastígio e menopausa.O clima do Far-West seria visível nas capitais amazônicas subitamente emergidas das estradas de seringa.

O Pará,Empório Comercial da Grande Bacia Amazônica

As cidades foram,em todos os países,os cenários mais espetaculares da Belle Époque.Intervenções urbanísticas modernizaram ou renovaram suas feições,expressando a realização dos anseios e do desejo das elites em se mostrarem progressistas e afinadas com o gosto europeu.No Brasil,a renovação das cidades,o afastamento das classes pobres dos limites urbanos,a implantação de uma estética que rompe com os padrões coloniais e o cosmopolitismo são parte de um vocabulário comum às cidades progressistas transformadas pelo urbanismo técnico,pelas medidas higienizadoras e pelas muitas medidas de controle social; a modernização da cidade do Rio de Janeiro é,a esse respeito,emblemática.Embora estas iniciativas também tenham se feito presentes na Amazônia,é preciso ressaltar a especificidade de sua consolidação nas duas capitais,Belém e Manaus - de histórias e tradições muito distintas,ainda que igualmente favorecidas pela economia da borracha.

Santa Maria de Belém do Grão-Pará foi fundada no século XVII como uma cidade-fortaleza,uma das iniciativas do império português visavam à defesa da região setentrional da colônia,objeto de sucessivas disputas entre franceses,holandeses e espanhóis.Quando,em meados do século XVIII,o sábio francês La Condamine desceu o Amazonas,reconheceu no Pará uma cidade com "ruas bem alinhadas,casas risonhas,magníficas igrejas".

Em 1751,com a chegada do novo governador,Mendonça Furtado - irmão do marquês de Pombal,imbuído do projeto iluminista de restaurar a Amazônia -,a cidade ascendeu a capital da unidade administrativa agora denominada do Grão-Pará e Maranhão,diretamente ligada a Lisboa e destacada do Brasil.

Neste momento,chegam à cidade vários cartógrafos e engenheiros,um corpo de profissionais e técnicos que atuaria nas comissões de demarcação do território amazônico.O fato de Belém ter se tornado a capital é expressivo da eficácia pretendida em relação aos controles do território amazônico e do lugar que o aspecto urbano assumia no projeto pombalino.Muitos dos técnicos permaneceram no Pará e estabeleceram descendência,ampliando as bases da elite paraense.A cidade ganhou novos contornos e foi objeto de investimentos para a regularização dos espaços públicos e a implantação e espaços e instituições sinalizadoras do poder,refazendo-se,na capital do Grão-Pará,o urbanismo monumental da capital do reino.O naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira,em seu livro Viagem Filosófica,apresenta minuciosas vistas aquareladas e o plano geral da cidade de Belém,a qual,mesmo em sua expansão durante o século XIX,manteve o padrão proposto pelo urbanismo português.

Em 1859,a cidade,com seus 25.000 habitantes,causou boa impressão ao estudioso Ave-Lallemant,a quem chamou a atenção o magnífico palácio do presidente,por ele considerado um dos melhores edifícios do Brasil - numa cidade onde registrou haver "ruas de bom aspecto,casas distintas,igrejas vetustas,um antigo convento" ,como lemos no seu livro No rio Amazonas-,muito embora nada lhe subtraísse o ar antigo e português.Nela,tudo parecia velho! Causavam-lhe espécie as maneiras de trajar dos homens e mulheres no Pará: vestiam-se pela última moda francesa,com caudas e anquinhas,fraques e cartolas.Nas casas de família havia sempre um piano,e bandas marciais tocavam hinos patrióticos;estas marcas do que Ave-Lallemant chamou de "europeização" acentuar-se-iam nas décadas seguintes,com a ampliação do número dos que a ela tiveram acesso.

Poucos anos após a estada de Ave-lallemant na cidade,Hasting,um major americano responsável pela vinda de confederados americanos para o Pará,foi mais favorável em suas observações: ao passar por Belém,impressionou-se com a imponência da cidade,suas longas avenidas arborizadas com mangueiras frondosas,numerosas praças públicas e iluminação a gás.

Na última década do século XIX,a cidade,aos olhos dos paraenses,ainda deixava a desejar,na medida em que,sob muitos aspectos,mantinham-se os traços do urbanismo colonial reconhecidos por seus visitantes.Na "era dos engenheiros",quando a borracha tornava palpável o progresso,o Pará se modernizou.Jovens paraenses - engenheiros,militares de ideologia positivista -,articulados em redes nacionais de relação com seus colegas de formação estabelecidos na capital da República,promoveram ou respaldaram as alterações que imprimiriam à cidade os sinais da nova ordem do progresso.

Em obra de 1895,o barão de Marajó descrevia em minúcias as mudanças que transformaram Belém na última década do século XIX,propiciando,a partir de então,uma alteração positiva da "prosperidade pública",a "purificação de nossos costumes" e o aperfeiçoamento dos espíritos.Sua opinião encerra as observações do historiador e do político cuja atuação na Intendência Municipal

de Belém,logo após a instauração da República,certamente favoreceu as transformações a que se refere.Com orgulho,enfatiza as inovações promovidas pelas últimas administrações do período republicano,financiadas por uma "lisonjeira" economia em que os impostos advindos da exportação permaneciam na esfera da administração estadual e os oriundos da importação eram da esfera da administração federal.Ampliaram-se as ofertas de ensino,superando-se com isso o período em que a instrução pública era tão insuficiente que "obrigava os pais a mandarem os filhos para o estrangeiro".Sem dúvida,o barão se referia aos filhos das famílias dos segmentos mais abastados,os pecuaristas do Pará ou aqueles oriundos da crescente classe média,sedentos de educação formal como parte fundamental de suas trajetórias em busca de posição e prestígio social.Foi o caso da maioria dos filhos da elite de Manaus,onde faltavam as marcas de distinção advindas da riqueza da terra.

No fim de 1895,Belém era uma cidade com área igual a de Madri,cortada por amplas avenidas e grandes estradas direcionadas para os novos bairros que recebiam as famílias em processo de elevação social.praças ajardinadas,edifícios da administração pública,várias escolas,hospitais,asilos e cadeia compunham as instituições de controle e reprodução social.Completavam o conjunto urbano,com seus serviços e numerosas atividades,os estabelecimentos industriais,casas bancárias e firmas seguradoras,e ainda as companhias de serviços urbanos: telégrafos,telefonia,linhas de bonde e estrada de ferro.

As quase 100.000 pessoas que viviam em Belém dispunham ainda de instituições culturais e recreativas,religiosas e laicas.Nas docas do Pará chegavam duas companhias inglesas,fazendo de dez em dez dias a navegação para Lisboa,Havre,Liverpool,Antuérpia,Nova York,Maranhão,Ceará,Pernambuco e Manaus,além da navegação costeira até o Maranhão e da linha inglesa com vapores semanais do Rio a Pernambuco,Pará e Nova York.

A transformação radical pela qual Belém passou estendeu-se ainda por toda a primeira década do século XX,de modo que a renovação urbana concretizada pelos engenheiros republicanos e o cosmopolitismo facilitado pela intensificação da exportação promoveram,pelo menos entre os paraenses,a sensação de que Belém era uma das melhores cidades do Brasil.Era indiscutível a prosperidade visível nas ruas,na monumentalidade das avenidas,e a euforia retratada na agenda dos acontecimentos culturais e sociais,conforme registravam os jornais.

Como resultado da expansão da economia da borracha e do crescimento geral das finanças do estado,a elite de fazendeiros,comerciantes,profissionais liberais e grandes seringalistas passou a viver na capital.As medidas modernizadoras e a reforma urbana impuseram restrições às camadas mais populares.O centro histórico foi mantido em sua escala e traçado do período colonial,e ampliou-se o perímetro da cidade em direção ao porto - afinal,a parte da cidade que melhor expressava o dinamismo econômico e as atividades de importação e exportação que garantiam a riqueza da municipalidade.

Em 1907,Belém contava com 192.230 habitantes.No porto do Pará,termômetro da vicejante economia,o vaivém de pessoas e mercadorias era grande: das 36.026 pessoas que entraram no estado naquele ano,quase 11.600 permaneceram na capital,absorvidas pelas atividades comerciais e pelos estabelecimentos industriais.

O embelezamento da cidade resultava de alterações urbanísticas e arquitetônicas estimuladas por uma legislação que procurava modernizar os espaços públicos e dotar de certas características as construções,imprimindo,nas fachadas dos prédios,elegância estética,graciosidade e uma racionalidade condizente com as necessidades de ventilação e higiene exigidas pelo clima.

Antonio Lemos,intendente de Belém,em relatório de 1905,comentava,desgostoso,o desequilíbrio estético de parte dos edifícios,sugerindo sua demolição e incentivando o apuro arquitetônico nas novas edificações.O apelo teve ressonância,as restrições se impuseram e,de fato,no cenário urbano de Belém e Manaus do início do século,consagraram-se as fachadas que expressavam a incorporação de novas técnicas,dos princípios de higiene e das normas estéticas.Novos materiais de construção chegavam da Itália,de Portugal e da França,de onde vinham também muitos dos profissionais que cuidaram de executar as alterações de estilo.

É importante considerar a dimensão moral das transformações urbanas,no sentido de impor regras de conduta e hábitos de higiene e racionalizar o uso dos espaços públicos.O código de posturas previa multas para os que jogassem águas utilizadas e quaisquer tipo de dejetos nas ruas,e os jornais anunciavam o horário em que passariam os carros de coleta do lixo,a ser posteriormente incinerado.

Apesar das medidas,no início do século XX,Belém e Manaus eram grandes focos de febres palustres,especialmente a malária,que dizimava sobretudo os estrangeiros,desprovidos de imunidade.Para solucionar o problema - que difamava a cidade e amedrontava seus moradores -,o governo promoveu uma campanha de erradicação do impaludismo,solicitando os serviços de Oswaldo Cruz entre 1910 e 1911.Contudo,já no próprio início do século XX,quando os postais eram uma das expressões mais vivas da sociabilidade brasileira,entre as imagens que circulavam nos cartões,exibindo os sinais do novo e da modernidade,não faltavam as vistas coloridas de Manaus e Belém.

Manaus,a surpreendente Paris das Selvas

A continuidade histórica entre a povoação da Fortaleza de São José do Rio Negro,fundada no século XVII,e a capital da província do Amazonas não é imediata,caso se busque na povoação o caráter urbano,a permanência dos prédios ou dos sinais das instituições do Império português e,depois,do Império brasileiro.Nesse aspecto,a diferença entre Belém e Manaus é acentuada.Não é inusitado o fato de que,mais do que Belém,Manaus seja considerada a "capital" da borracha,pois foi na ocasião do boom deste produto que a cidade ganhou visibilidade,projetando-se internacionalmente como uma cidade moderna,dotada de sofisticados meios de transporte e comunicação.

Como vila ou cidade,Manaus teve seu nome submetido à alternância de dois critérios: o da localização geográfica na Barra do Rio Negro e o que privilegiava a referência à ocupação da área por indígenas,entre eles os Manaós.Com a criação da província do Amazonas em 1852,a cidade da Barra do Rio Negro tornou-se sua capital e,em 1856,a Assembléia Legislativa provincial sancionou a lei que mudava o nome para Manaus.O fato foi motivo de comemoração para a população,pois,como registrou o periódico Estrela do Amazonas,em setembro de 1856,"todos acham o nome Manaós mais nosso,mais significativo".A escolha privilegiava mais a referência aos grupos indígenas que ali viviam - Barés,Passés,Banibas e Manaós (sendo esta a última tribo sobre a qual a denominação portuguesa havia sido mais contundente) - que a pouco linear história política e administrativa da província e da cidade que seria sua capital.

Era marcante a precariedade das ruas estreitas entrecortadas por igarapés,a simplicidade do casario e a exclusividade do pequeno comércio.A morfologia social era marcada pelo caráter disperso da população,que permanecia boa parte do ano pelas matas,dedicada às atividades de coleta,caça e pesca.

Todas essas características são temas recorrentes nos registros de viajantes que por ali passaram até a década de 1880.O crescimento da população da capital,notável no fim dos anos 80 (quando a cidade tinha 38.720 habitantes),não alterou,do ponto de vista da implantação urbana,uma atitude diante da natureza menos de intervenção do que de adequação - pela falta de recursos ou de iniciativas.Manaus não era de modo algum objeto de admiração por parte da elite que ali vivia,que falava da cidade como uma "aldeia" e sonhava com um espaço urbano em tudo distante do que ela evocava de mais forte: a presença impertinente da natureza por toda parte.Às vésperas da proclamação da República,a cidade permanecia acanhada,constrangida especialmente pelo rio,para onde estava voltada.

Entre 1892 e 1896,durante a administração do jovem maranhense Eduardo Ribeiro,um engenheiro militar,Manaus foi transformada.Foram introduzidos mecanismos legais que visavam a promover um melhor controle do espaço urbano e a nortear a ocupação de novas áreas,garantindo assim os rumos da expansão urbana.

Reduziu-se a indiscriminação quanto ao que era comum às casas de "brancos" e "fuscos",à luz do que propunha o novo código,evidenciando-se as diferenças sociais,tão mais visíveis na última década do século XIX.

O Código Municipal de Manaus,de 1893,fornece as indicações de uma cidade pensada como "moderna".Ela não é apenas um instrumento de ação sobre o espaço;é também um artifício para a consecução de uma nova sociedade.Por um lado,restringia posturas e hábitos indesejáveis;por outro,estimulava atitudes mais apropriadas a uma "cidade sonhada" e adequada ao "progresso" e à ordem pretendidos.

Os novos bairros previstos eram inteiramente distintos da implantação anterior,pautada numa ligação tradicional com o rio.Ruas largas em traçado reto significavam,o mais das vezes,uma atitude de ação sobre a natureza,submetendo ao trabalhos de canalização as águas dos igarapés que dividiam a antiga cidade.O novo modelo urbanístico adotado era baseado num traçado em forma de tabuleiro de xadrez,e as obras,a partir daí,fizeram com que as colinas fossem aplainadas,os igarapés,aterrados,e as ruas avançassem em direção à mata.A cidade passou a ter dois patamares: um voltado para o rio e outro que dele se distanciava,incorporando as áreas de mata ao quadriculado do novo traçado.O eixo principal,inicialmente denominado Avenida do Palácio,quando inaugurado em 1901,recebeu posteriormente o nome de Eduardo Ribeiro,numa homenagem póstuma.Chamado pelos moradores simplesmente de "Avenida",indicava o centro simbólico da nova cidade então concebida.

A Manaus modernizada atendia particularmente ao interesses da burguesia e da elite "tradicional",vinculada às atividades administrativas e burocráticas.Foram implantados vários serviços urbanos: redes de esgoto,iluminação elétrica,pavimentação das ruas,circulação de bondes e o sistema de telégrafo subfluvial,que garantia a comunicação da capital com os principais centros mundiais de negociação da borracha.

Muitos dos que foram para o Amazonas da década final do século XIX e no início do século XX - estrangeiros ligados à exportação e à importação ou funcionários das firmas prestadoras de serviços urbanos e de navegação,e,em menor número,profissionais liberais - passaram a viver nos novos bairros,nos quais as ruas seguiam o traçado geométrico previsto na carta,livre da tirania dos igarapés e de aspecto mais salubre que o antigo centro.

Mesmo a construção das casas refletia um estilo de vida distinto,com uma nítida separação entre os locais de moradia e os de trabalho,valorizando-se as residências situadas em amplos terrenos ou chácaras.

No estilo das casas e na disposição dos jardins e pomares,expressava-se a diversidade das origens dos que ali passaram a viver: ingleses,americanos,libaneses e,também,exportadores de borracha,médicos brasileiros.A regularidade ou o ponto em comum entre todos esses recém-chegados advinha tanto de sua posição de estrangeiros quanto de seu comportamento mais marcadamente individualista,o que se expressava nos modelos familiares e nas trajetórias dos filhos,comparativamente ao que predominava entre as famílias já estabelecidas.Formava-se um conjunto ruidoso e cosmopolita.

Das iniciativas promovidas por Eduardo Ribeiro depreendem-se as bases de uma significativa alteração das representações e expectativas em relação à cidade,considerando-se o que fora,por exemplo,a cidade provincial: ela não é mais o locus onde se constituirá a elite,onde se implantarão os sinais emblemáticos do Império.A elite já consolidada apropria-se agora da cidade que conquistou como lugar privilegiado de consagração da distinção,seja pelo consumo de bens e serviços sofisticados,seja pelo contato e interação com os negociantes da borracha e muitos viajantes que deram seu caráter cosmopolita,ou ainda por ser este mais e mais o lugar privilegiado do investimento simbólico de indivíduos que se articulam como grupo.A cidade conquistada enunciava a efetiva viabilidade de civilização em tão remota paragem: homens "civilizados" vivendo numa cidade subtraída à selva circundante,embelezada e favorecida pelas benesses do consumo e da engenharia urbana desenvolvida por europeus e norte-americanos.A intervenção urbana promoveu,aos olhos dos que ali viviam,a superação de um atraso histórico.Graças à homogeneidade no estilo,nas funções ou nos usos que tiveram os novos espaços,adveio uma representação de ampla e inequívoca aceitação para os amazonenses sobre a "Manaus antiga".Este é o cenário urbano da "Belle Époque manauara",por vezes denominado de "Manaus moderna".

As condições particulares em que se realizou a belle époque na Amazônia apontam para um período em que cidades como Manaus e Belém davam provas evidentes de bem-estar,prosperidade e conforto doméstico.O crescimento das duas capitais é sem dúvida emblemático do progresso da ação controladora do empreendimento civilizador sobre a floresta,como sugeriam ou espelhavam os suntuosos edifícios-monumento,os jardins públicos,as avenidas e o casario renovado.Antes disso,apesar das expectativas em relação ao uso das riquezas da floresta ou à possibilidade de exploração agrícola da Amazônia,nada houve comparável à efervescência social,à excitação,que a economia da borracha promoveu,expondo de forma inédita,nacional e internacionalmente,as sociedade amazônicas.

O Lado Oculto do Fastígio

Na última década do século XIX,o palco para o vaudeville estava preparado e o cenário pronto.O coronel da borracha,ou seringalista,seria o grande astro dessa comédia de boulevard,a grande personagem dessa obra-prima da monocultura brasileira que foi o vaudeville do "ciclo da borracha".Ele era o patrão,o dono e senhor absoluto de seus domínios,um misto de senhor de engenho e aventureiro vitoriano.O coronel tinha "formas" de agir: era o cavaleiro citadino em Belém ou Manaus e o patriarca feudal no seringal.

Mas essa contradição nunca preocupou ninguém.A face oficial do látex era a paisagem urbana,a capital coruscante de luz elétrica,a fortuna de Manaus e Belém,onde imensas somas de dinheiro corriam livremente.O outro lado,o lado terrível,as estradas secretas,estavam bem protegidas,escondidas no infinito emaranhado de rios,longe das capitais.O lado festivo,urbano,civilizado,que procurou esconder as grandes monstruosidades cometidas nos domínios perdidos,poucas vezes foi perturbado durante a sua vigência no poder.Euclides da Cunha foi um pioneiro ao anunciar a estrutura aberrante. Para o pobre imigrante, "nas paragens exuberantes das héveas e castilôas, o aguarda a mais criminosa organização do trabalho que ainda engendrou o mais desaçamado egoísmo".

Contra essa situação,Euclides da Cunha pede
"urgência de medidas que salvem a sociedade obscura e abandonada: uma lei do trabalho que nobilite o esforço do homem;uma justiça austera que cerceie os desmandos;uma forma qualquer de homestead que o consorcie definitivamente à terra".
Euclides da Cunha redescobre o seringueiro explorado:
"(...) são admiráveis. Vimo-los de perto, conversamo-lo (...) Considerando-os,ou revendo-lhes das musculaturas inteiriças ou a beleza moral das almas varonis que derrotaram o deserto".

Com essa visão crítica, Euclides da Cunha passou a ser considerado pelos coronéis como um pobre demente que não sabia o que dizia numa literatura intricada.

Plácido de Castro combatia a monocultura cega da borracha, vislumbrava sua futura decadência e preocupava-se com o sistema retrógrado dos seringais. Ele foi o primeiro a tentar, em suas terras no Acre, uma diversificação agrícola por meio modernos, usando adubos e máquinas para melhorar a produção. Pagou com a vida a ousadia de desafiar homens tão poderosos.

O seringueiro,retirante nordestino que fugia da seca e da miséria,era uma espécie de assalariado de um sistema absurdo. Aparentemente era livre, mas a estrutura concentradora do seringal o levava a se tornar um escravo econômico e moral do patrão. Endividado, não conseguia mais escapar. Se tentava fugir, isso podia significar a morte ou castigos corporais rigorosos. Definhava no isolamento, degradava-se como ser humano, era mais uma pobre alma do sistema espoliativo do extrativismo.

Enquanto os seringueiros caíam no esquecimento, os coronéis de barranco vibravam com as polacas e francesas, mas as senhoras de respeito eram guardadas nos palacetes, cercadas de criadas e ocupadas com alguns afazeres mesquinhos.

A Ostentação

A ostentação das cidades de Belém e Manaus impressionava os novos viajantes que nelas chegavam. Jean de Bonefous, viajante francês, dá sua impressão do lado sorridente da sociedade da borracha. Belém pareceu-lhe Bordéus,com
"um movimento de veículos de toda a sorte, um vai-e-vem contínuo, que parecia mais um grande centro europeu do que uma cidade tropical".
Sobre Manaus,outro francês, Auguste Plane, emocionava-se com o Teatro Amazonas:
"A construção é majestosa,quanto ao interior; a sala é elegante e ricamente decorada. O teto, obra magistral do pintor De Angelis, é admirável. Bem arejado, bem iluminado, representa uma das curiosidades de Manaus. A mais refinada das civilizações chegou até o Rio Negro."
O coronéis enriquecidos receberam de braços abertos os europeus. Afinal, para a administração de seus bens precisavam de pessoal alfabetizado.

Dominando a sociedade - informa o sociólogo Bradford Burns - e as atividades da cidade,encontravam-se os membros da aristocracia brasileira que,ou eram brancos,ou passavam como tal, e uma grande percentagem de estrangeiros.

Belém e Manaus mantiveram uma agitada vida cultural entre os anos de 1890 e 1920. As duas cidades investiram na construção de óperas suntuosas, que acolhiam temporadas líricas anuais. O Teatro da Paz, localizado em Belém, foi concebido na década de 1860, quando foi lançada sua pedra fundamental, foi inaugurado somente em 1878. Na década seguinte, o edifício foi reformado e reinaugurado, incorporando nesta ocasião detalhes arquitetônicos que resgataram sua monumentalidade, e ainda os trabalhos de pintores italianos na decoração interna. Em 1881, este teatro iniciou sua primeira temporada lírica.

O Teatro Amazonas, inaugurado em 1896, custou aos cofres públicos a quantia de 400.000 libras esterlinas. Na opinião do historiador inglês Eric Hobsbawm, o Teatro Amazonas é uma "catedral característica da cultura burguesa". Essa descrição é reforçada por duas peculiaridades do teatro: sua localização, em meio à exuberante floresta equatorial; e sua singular e multicolorida cúpula. O Teatro Amazonas foi sem dúvidas o grande salão da "Alta sociedade Manauara".

A Amazônia produziu escritores como o colombiano José Eustasio Rivera, autor do romance La Voragine, e brasileiros como Inglês de Sousa, pioneiro do naturalismo, autor de romances como O Coronel Sangrado e o Cacaulista,e poetas como Jonas da Silva, Paulino de Brito e Raimundo Monteiro. No campo dos estudos literários, é inquestionável a presença de José Veríssimo, e nos estudos regionais ressaltam os nomes de Domingos Antonio Raiol, Ferreira Pena, Lauro Sodré e Sant'Ana Nery.

O poderio econômico da borracha foi capaz de tentar a elevação do nível educacional, criando no Amazonas a primeira universidade brasileira, a Escola Universitária Livre de Manaus, e de buscar expressão na mais moderna e dispendiosa forma de arte e seu tempo, o cinema. Com o pioneiro Silvino Santos, imagens da região foram guardadas para sempre em filmes como "No Paiz das Amazonas" e "No Rastro do Eldorado".

Declínio da economia da borracha na Amazônia

O clima de euforia dura até 1910, quando a situação começa a mudar: a partir daquele ano entram no mercado as exportações de borracha a partir das colônias britânicas e o Brasil não suporta a feroz concorrência que lhe é inglesa. No ano 1913 a produção Inglesa-Malásia superou pela primeira vez a do Brasil. Em seguida, muitos seringais foram abandonados e muitos seringueiros voltaram ao nordeste. A Inglaterra havia adquirido cerca de 70.000 sementes do inglês Henry Wickham, em 1876, contrabandeadas, das quais 2.000 haviam florescido. A diferença técnica de plantio e extração do látex no Brasil e na Ásia foi determinante para os resultados da exploração como negócio.

As plantações racionalizadas do Extremo Oriente proporcionaram significativo aumento da produtividade e se tornaram mais competitivas. Enquanto a distância entre as seringueiras na Ásia era de apenas quatro metros, na Amazônia caminhava-se às vezes quilômetros entre uma árvore e outra, o que prejudicava e encarecia a coleta. No Brasil, o governo resistia a mudar os métodos. Acreditava que a exploração da maneira que era feita assegurava a presença de brasileiros e garantia a soberania nacional sobre a despovoada região amazônica. Privilegiava-se a geopolítica, representada pela ocupação, em detrimento da geoeconomia, que poderia render melhores frutos. Em 1920 os seringais do Oriente produziam 1,5 milhão de toneladas de borracha, contra 20 mil toneladas da Amazônia.

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