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A Imigração Italiana ao Brasil


Quadro de Angiolo Tomasi, de 1896, retratando a partida dos imigrantes da Itália. O original faz parte da coleção da Galeria Nazionale di Arte Moderna, em Roma.


Embora a crise econômica de toda a Itália tenha se intensificado durante o final do século XIX, ela não abalou da mesma forma as diversas regiões do país.

O norte foi a primeira área a ser atingida, pois foi ali que começou a ser desenvolvida a industrialização, que acabou deixando os agricultores (que complementavam sua renda com o trabalho artesanal) sem emprego e sem um mercado no qual pudessem vender seus produtos — que não podiam competir com os produzidos pelas fábricas locais ou com os importados.

Foi essa região da Itália que forneceu as primeiras grandes levas de imigrantes. O sul só viveu esse processo mais tarde, principalmente a partir do início do século XX. Atualmente, por ter sofrido antes o processo de industrialização, o norte da Itália apresenta uma economia bem mais desenvolvida que o sul, que permaneceu baseado no sistema agrário por muito mais tempo.

A ida para o sul

Em 1870, o governo imperial decidiu dar prosseguimento à colonização no sul do país motivado pelo êxito obtido com os imigrantes alemães, que ocuparam, 50 anos antes, a região de São Leopoldo (RS).

Para dar continuidade ao processo de “interiorização” da população do Rio Grande do Sul, nos anos de 1875 e 1876, o Governo-Geral reivindicou e promoveu o povoamento dos territórios de Conde D'Eu e Dona Isabel (atuais Garibaldi e Bento Gonçalves, respectivamente), fundando, em 1875, uma nova colônia, chamada de Fundos de Nova Palmira. Esse local foi rebatizado em 1877 com o nome Colônia Caxias e, mais tarde, tornou-se o centro da colonização italiana nesse estado. Ainda em 1877, dois anos após ter assumido os trabalhos de colonização, a União resolveu criar mais uma colônia para imigrantes italianos, utilizando as terras da mata próxima a Santa Maria; assim, surgiu a colônia Silveira Martins.

Embora tenham encontrado um Rio Grande do Sul já organizado economicamente, os italianos tiveram de enfrentar dificuldades semelhantes às vividas pelos alemães, como o desconhecimento do português e a falta de escolas. Até mesmo as áreas destinadas à ocupação pelos colonos italianos dificultavam muito a vida deles, pois eram mais altas e acidentadas que os outros locais, uma vez que a colonização alemã seguira pelos vales dos rios, deixando aos italianos apenas regiões de serras.

Da mesma forma que os alemães, os italianos tiveram de desbravar as terras que adquiriram, mas com lotes bem menores, medindo entre 15 e 35 hectares. Ali, eles plantaram produtos para sua subsistência — como o milho e o trigo — e, principalmente, a uva.

Antes de sua chegada, a produção vinícola do Rio Grande do Sul era considerada de qualidade inferior. Mas os primeiros colonos trouxeram novas variedades de uva, o que ajudou a melhorar o vinho gaúcho. A partir do início do século XX, começaram a ser formadas cooperativas vinícolas, e a produção foi crescendo e transformando o estado no principal produtor de vinhos finos do país.

Espírito Santo

A primeira viagem de imigrantes italianos aconteceu no dia 3 de janeiro de 1874. Eles vieram a bordo do navio a vela La Sofia, de bandeira francesa, que partiu do Porto de Gênova nessa data e chegou ao Brasil em fevereiro de 1874. Ao todo, 386 famílias desembarcaram aqui e encaminharam-se para as terras de Pietro Tabacchi, em Santa Cruz, no Espírito Santo.

Contudo, oficialmente, a imigração teve início no Brasil com a chegada do navio Rivadivia, que aportou em 31 de maio de 1875, com 150 famílias italianas, que se dirigiram para Santa Leopoldina, de onde seguiram para Timbuí e fundaram Santa Teresa (essas localidades também eram situadas no estado do Espírito Santo).

Os primeiros colonos que chegaram a esse estado passaram pelos mesmos problemas de adaptação que os que foram para o Rio Grande do Sul. Mesmo assim, um fenômeno interessante aconteceu: eles costumavam escrever às suas famílias e amigos contando sobre as vantagens que encontraram na nova terra (muitas vezes, até omitiam as dificuldades pelas quais passavam). Assim, atraíam novos imigrantes, originários das mesmas localidades da Itália e, às vezes, das mesmas famílias.

A predominância de pessoas provenientes de Vêneto fez com que os dialetos dessa região prevalecessem no idioma italiano falado em nosso país. E, da fusão dos diversos dialetos, acabou surgindo uma “língua geral”, chamada de vêneto.

Em 20 de julho de 1895, o governo da Itália proibiu terminantemente a emigração para o Espírito Santo. Essa medida foi tomada em conseqüência do relatório enviado pelo cônsul da Itália no estado, que apontava as dificuldades que o imigrante era obrigado a enfrentar: má alimentação, abuso da polícia, justiça incerta, insalubridade do clima, deficiência de serviços médicos e escolares, demora excessiva na medição dos lotes e divisão de terras, etc.

A São Paulo anarquista 

O governo brasileiro recrutou a primeira leva de famílias italianas para o Estado de São Paulo com a finalidade de substituir a mão-de-obra escrava nos cafezais. Como a situação era terrível para esses imigrantes, que eram considerados “escravos brancos”, muitos retornaram à Itália, desencantados com a América.

Outros abandonaram as fazendas e foram para as cidades para trabalhar na indústria e no comércio. E o centro de São Paulo, mais precisamente o bairro da Bela Vista, tornou-se o novo lugar de concentração desses imigrantes. Mesmo chegando à cidade sem saber exatamente o que fazer, alguns começaram a se destacar, e sobrenomes como Ramenzoni, Scarpa e Matarazzo passaram a ganhar evidência. Eram pessoas com boa formação ou apenas bons negociantes que passaram a fazer fortuna.

Assim, o perfil da cidade de São Paulo acabou sendo definido em grande parte pela imigração italiana do século XIX. Também foi nessa época que se formaram bairros como a Mooca, o Brás e o Bixiga, famosos redutos italianos.

Em seu livro Anarquistas, Graças a Deus, a escritora Zélia Gattai conta a história de um grupo particularmente interessante de imigrantes que vieram ao Brasil, os anarquistas, que influenciaram muito a luta antifascista, anti-racista e antiimperialista no país, principalmente em São Paulo, durante aRevolução Tenentista de 1924 . (Anarquistas, Graças a Deus, 426 págs., Editora Record)

O porquê das colônias

Em 1885, com a campanha abolicionista, a colonização foi retomada e muitas outras comunidades foram formadas. Os imigrantes italianos eram movidos pela solidariedade cristã e, devido ao isolamento em que se encontravam, logo se organizaram em comunidades caracterizadas pelo cultivo da amizade e pela fé religiosa.

No início, esses trabalhadores foram obrigados a optar pelo plantio de frutas silvestres e pela caça. Sem dispor de uma agricultura mecanizada, eles empregavam a prática das “queimadas” para proceder à limpeza das glebas para o plantio. Em certo momento, “pediu-se” ao povo italiano que renunciasse a sua língua e falasse o português. A justificativa era que essa medida protegeria a cultura brasileira, evitando que se formassem duas pátrias alienígenas. Com a proibição do uso de sua língua materna e a punição que lhes era reservada, cresceu o sentido de inferioridade daqueles que vieram colonizar nosso país.

“Nessa época, a escravidão estava para ser abolida e não existia uma legislação trabalhista. O trabalho ainda era associado ao trabalho escravo. Por isso, a princípio, houve atritos entre imigrantes e fazendeiros do café. Apesar de tudo, as dificuldades foram superadas com o passar do tempo”, conta Luciana Facchinetti.

A partir da Proclamação da República, foi estimulada a miscigenação, a fim de que as colônias criadas fossem mistas, com membros de várias etnias. Mas essa idéia teve sucesso apenas parcial, pois geralmente os colonos remanejavam-se entre si, reagrupando-se, por iniciativa própria, segundo o grupo étnico de que faziam parte.

A imigração após a Segunda Guerra 

Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, por volta de 1950, houve um novo movimento de imigração de italianos para o Brasil. “Eles cruzaram o Atlântico porque seu país estava destruído e também devido ao desmoronamento de um sonho. Criados no fascismo, sob a promessa de Benito Mussolini de um país unido, grande e forte, foram pagos com moeda falsa: perderam a infância e parte da adolescência e passaram muita fome”, conta Luciana Facchinetti — que, no início deste ano, apresentou uma dissertação de mestrado junto ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp sobre essa segunda onda migratória da Itália para o Brasil.

Luciana é filha de Giovanna e Giuseppe, italianos que vieram ao Brasil em busca de um lugar onde pudessem trabalhar e recomeçar a vida após os horrores da guerra. “Porque sou descendente de imigrantes italianos, sempre tive muito interesse por esse tema. Meus familiares chegaram ao Brasil na década de 1950”, revela.

A historiadora lembra que a realização de seu trabalho foi uma tarefa penosa, pois o tema “Imigração italiana após a Segunda Guerra Mundial” é pouco estudado. “Apenas outros quatro estudiosos pesquisaram o assunto”, diz. Ela recorreu a 24 mil fichas produzidas pelo Comitê Intergovernamental para as Migrações Européias (Cime) para reconstituir a história de alguns personagens e avaliar sua influência no desenvolvimento da indústria brasileira.

Leia trechos da entrevista com a historiadora.

Quais foram os motivos que trouxeram os italianos para o Brasil após a Segunda Guerra Mundial? Como era a vida deles na Itália?
A Itália, após a Segunda Guerra, encontrava-se destroçada. O desemprego atingiu todas as camadas da sociedade. E esta foi a principal causa da saída dos italianos: a busca por oportunidades de trabalho.

Eram imigrantes que nasceram e cresceram sob o regime fascista. Segundo as pessoas que entrevistei para minha dissertação, antes da guerra as dificuldades eram superáveis. Contudo, após o início desta, a fome e o medo tornaram-se elementos constantes na vida dos italianos, especialmente de 1943 a 1945, quando o rei Vitor Emanuel II assinou um tratado com os aliados, fazendo com que a Itália “mudasse de lado”. Instaurou–se, então, uma guerra civil entre fascistas e alemães contra os partigiani (denominação para quem era contra o regime) e os aliados. E quem mais sofreu, como sempre, foi a população civil, especialmente as crianças e os velhos.

A vida aqui era mais fácil do que na Itália? Existia preconceito contra os imigrantes pelo fato de eles terem vindo de um regime supostamente inimigo do Brasil na época?
A vida aqui, sem dúvida, era muito mais fácil. E eles não sofreram preconceito; ao contrário: todas as pessoas que entrevistei declararam que foram muito bem recebidas, principalmente pelos brasileiros.

Como esses imigrantes do pós-guerra influenciaram o Brasil? Havia alguma diferença entre eles e os que imigraram no século anterior?
Os imigrantes do pós-guerra ou eram alfabetizados (estudaram até a 4.ª série do que hoje chamamos de Ensino Fundamental) e qualificados (tinham noção do ofício, pois, quando eram pequenos, ao saírem da escola, aprendiam uma profissão, até mesmo os que viviam da agricultura, com um parente ou vizinho), e estes eram a maioria, ou possuíam curso técnico ou superior. Esses italianos foram trabalhar, principalmente, na indústria e comércio das grandes cidades. Já no caso dos que vieram na primeira leva, 90% eram analfabetos e agricultores e foram, inicialmente, trabalhar nas fazendas de café para, só depois de algum tempo, deslocarem-se para os grandes centros.

A especialização ou a qualificação era um critério importante para que esses trabalhadores fossem aprovados pelo governo brasileiro, que incentivava a indústria e já não se interessava em receber novas levas de mão-de-obra barata.

Que profissões exerciam esses imigrantes e que inovações eles trouxeram para o Brasil?
Os ofícios mais comuns eram: pedreiro, marceneiro, alfaiate, carpinteiro, ferramenteiro, costureira, barbeiro, padeiro, motorista, mecânico (de automóveis e da indústria metalúrgica), engenheiro e técnico.

De acordo com os entrevistados, esses italianos trouxeram muitas idéias que, para nós, eram inovações e tentaram aplicá-las, mas nossa indústria e tecnologia não permitiram que eles pusessem em prática seus projetos, pois nosso maquinário era obsoleto. Com o passar do tempo, aqueles que tiveram sucesso foram buscar máquinas mais avançadas na Itália (leia o quadro com o depoimento de Franco Luperi, que veio para o Brasil após a Segunda Guerra).

Os descendentes italianos que já estavam no Brasil deram apoio aos recém-chegados?
Sim, pois, para poder emigrar, eles tinham de receber uma “carta de chamada” ou, então, vir pelo Cime (Comitê Intergovernamental para as Migrações Européias, criado em 1951 por países das Américas, Europa e Austrália).

Os parentes dos que vinham por “carta de chamada” deviam se responsabilizar pela estadia dessas pessoas e arranjar-lhes emprego. Aos imigrantes, cabia pagar a passagem de navio.

Aqueles que vieram pelo Cime permaneceram nas hospedarias (quando não tinham parentes ou amigos aqui), e o próprio comitê se encarregava de fazer a colocação desses trabalhadores nas empresas. Esses imigrantes não precisavam pagar a passagem.

Nessa mesma época, vários italianos rumaram também para outros países, como Venezuela, Argentina e EUA. O que diferenciava cada uma dessas “levas”?
Apenas a oportunidade de trabalho e a remuneração.
“Na Embraer, ajudei a construir o Xavante e o MAC 308 e a desenvolver a parte relacionada à medição óptica da montagem do primeiro Bandeirante. Mas os meios de construção do primeiro avião eram rudimentares. Até hoje, não sei como ele conseguiu voar. Os conhecimentos eram válidos, o entusiasmo, contagiante, mas os recursos disponíveis eram bastante escassos e primitivos: não havia no Brasil, por exemplo, equipamentos indispensáveis à colocação em obra dos componentes do avião, e eles tiveram de ser trazidos da Itália. Eu fiz a tradução dos procedimentos, que estavam descritos em italiano, para o português. E, na ocasião, tive de fazer todo um estudo da montagem da primeira parte do Bandeirante. A parte industrial — ou seja, o ‘como se devia fazer’, os meios de utilização das máquinas e ferramentas e a descrição passo a passo da montagem do avião — foi feita por mim. Foi um belo trabalho, do qual tenho orgulho. Gostei de ter realizado aquilo”.
Franco Luperi é engenheiro e
trabalhou na Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica).

Disponível em Portal Aprende Brasil

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