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A Primeira Guerra Mundial

01/08/2010 - 09:01 | Max Altman | São Paulo
Hoje na História: 1914 - Começa a Primeira Guerra Mundial
A Paz Armada chegou ao fim com a eclosão da Grande Guerra de 1914. A corrida armamentista, o jogo de alianças e as tensões resultantes das disputas imperialistas entre as potências europeias tiveram como resultado o maior conflito armado de todos os tempos.

Participaram da guerra as potências européias e suas colônias, outros Estados menores, os Estados Unidos e o Japão. A guerra começou por causa de um atentado terrorista na conturbada região dos Bálcãs.

A Grande Guerra
A Grande Guerra foi um conflito entre as potências industriais pela hegemonia na Europa e no mundo. Durante a Paz Armada, as potências europeias investiram maciçamente na produção de armas cada vez mais destrutivas. Além disso, mantinham exércitos em estado de prontidão. O custo de manutenção dos exércitos era muito alto: em algum momento, teriam de justificar a sua existência.

A política de alianças: rumo à guerra mundial
A política de alianças das potências europeias durante a Paz Armada transformou a guerra num conflito generalizado. A Tríplice Aliança reunia os impérios militaristas da Alemanha e da Áustria e o reino da Itália.
  • A Alemanha mantinha um exército permanente de mais de 1 milhão de soldados. Uma das principais potências econômicas da Europa, com 60 milhões de habitantes, a Alemanha alegava precisar de espaço para se expandir.
  • Apesar de suas dimensões colossais, o Império Austro-Húngaro apresentava uma situação interna extremamente frágil, pois abrigava várias nacionalidades. As tensões entre germanos e eslavos provocavam insurreições e levantes populares. O nacionalismo eslavo e a disputa entre a Rússia e a Áustria pelo domínio da região agravaram a situação.
  • A Itália se aliou à Alemanha e à Áustria procurando expandir seus domínios coloniais. Além disso, tinha pretensões na região dos Bálcãs. Durante a Paz Armada, manteve um exército permanente e construiu uma frota de guerra considerável.
Para contrabalançar a Tríplice Aliança, a França, a Rússia e a Inglaterra formaram a Tríplice Entente.
  • A França ainda se recuperava da derrota de 1871 diante da Alemanha, quando perdeu os ricos territórios da Alsácia e da Lorena. Internamente, as lutas entre os trabalhadores e a burguesia e os escândalos financeiros e políticos debilitavam a Terceira República. Apesar disso, a França havia reunido um considerável império colonial, tornando-se a segunda potência colonial europeia, logo atrás da Inglaterra. Isso levou a uma maior aproximação entre os dois países. Em 1904, eles assinaram um pacto de amizade.
  • A Rússia aderiu à aliança entre a França e a Inglaterra em 1908. Internamente, o império russo continuava absolutista e semifeudal. Apesar disso, empreendeu uma bem-sucedida política imperialista na Ásia e conseguiu manter sob sua dominação os povos eslavos do Báltico, aguçando as tensões na região. Disputava com a Alemanha a supremacia na Polônia e na Europa central.
  • A Inglaterra foi a maior potência econômica do século XIX. A estabilidade interna, somada ao grande desenvolvimento de sua indústria, fez dela uma potência de primeira ordem no cenário mundial. Seu império colonial reunia uma população de mais de 450 milhões de habitantes. No início do século XX, optou por uma política de aproximação com a França, que resultou na formação da Tríplice Entente. A Primeira Guerra Mundial marcou o início do desmoronamento do poder britânico no mundo.

O atentado em Sarajevo
No dia 28 de junho de 1914, o príncipe herdeiro da coroa austríaca, arquiduque Francisco Ferdinando, foi assassinado na cidade de Sarajevo, na Bósnia. A visita do herdeiro a essa região tinha um nítido conteúdo político: pretendia demonstrar o domínio austríaco na região. O atentado, cometido por um estudante ligado a uma organização secreta sérvia, desafiou a autoridade austríaca na região. A resposta foi imediata: a Áustria interveio na Sérvia.

A Rússia também mobilizou seus exércitos na região. Em pouco tempo, toda a Europa estava em guerra. Os motivos que desencadearam o conflito foram:
  • A rivalidade entre as grandes potências pelo domínio dos mercados coloniais;
  • A corrida armamentista, geradora de novas tensões, e o estado de prontidão dos exércitos dos países europeus;
  • A política de alianças entre as potências, que transformou o conflito num enfrentamento generalizado;
  • As tensões geradas pelo imperialismo europeu na região dos Bálcãs e os conflitos de fronteiras entre os principais Estados europeus.
As frentes da guerra

A Primeira Guerra Mundial durou mais de quatro anos. Mas, apesar da participação dos Estados Unidos e do Japão e dos enfrentamentos nas colônias, foi um conflito essencialmente europeu.

As principais “frentes” de batalha foram as seguintes:
  • A frente ocidental se desenvolveu nas fronteiras entre a Bélgica, a França e a Alemanha;
  • Na frente dos Bálcãs, a Sérvia, a Romênia e a Grécia, com apoio da Tríplice Entente, lutaram contra a Áustria, a Turquia e a Bulgária;
  • No Oriente Médio, turcos e ingleses lutaram na Síria, Arábia e Palestina;
  • A frente oriental se desenvolveu nas fronteiras da Rússia com a Alemanha e a Áustria;
  • A frente alpina se desenvolveu na fronteira austro-italiana;
  • As colônias alemãs na África e no Pacífico foram invadidas por ingleses, japoneses e seus aliados;
  • A guerra marítima se desenvolveu principalmente no Atlântico e no Mediterrâneo.
A técnica a serviço da destruição
O grande desenvolvimento técnico e industrial alcançado pelas potências europeias durante a Paz Armada resultou na criação de armas de guerra extremamente poderosas.
Os exércitos terrestres utilizaram a artilharia pesada, armas de repetição e metralhadoras. Durante a guerra, surgiram armas novas e ainda mais terríveis: os lança-chamas, os gases tóxicos e o tanque.
No mar, as esquadras utilizaram enormes navios encouraçados que carregavam peças de artilharia pesada. Os submarinos, armados de torpedos e minas explosivas, ameaçaram a navegação comercial inimiga.
No início, a aviação foi usada apenas para vigiar os movimentos do inimigo. No transcorrer do conflito, os aviões foram armados com bombas e metralhadoras, convertendo-se em armas.


No início da guerra, os dois lados confiavam numa vitória rápida e decisiva. Esse clima de otimismo se fez presente nas manifestações organizadas para apoiar a guerra. O pacifismo de alguns dirigentes socialistas foi abafado, muitas vezes com violência. No 31 de julho de 1914, quando a catástrofe era iminente, o dirigente socialista francês Jean Jaurés, partidário da paz, foi assassinado por um fanático nacionalista.

Os exércitos alemães ocuparam parte da Bélgica, invadiram a França e ameaçaram avançar sobre Paris. Foram detidos na gigantesca batalha do Marne: numa frente de 280 quilômetros, cerca de 2 milhões de soldados alemães e franceses disputaram uma das maiores batalhas da História.

Os franceses conseguiram deter o avanço alemão. A partir de então, desenvolveu-se a guerra de posições, um longo e sangrento desgaste ao longo de uma frente estabilizada. A tentativa alemã de definir rapidamente as ações na frente ocidental havia fracassado.

Após o fracasso alemão no oeste, a frente ocidental se transformou numa linha estática. Soldados alemães e franceses lutavam dentro de trincheiras protegidas com arame farpado e metralhadoras.

A derrota russa na frente oriental
Na segunda metade de agosto, os despreparados exércitos russos invadiram a Prússia oriental. A luta na frente oriental continuou, com resultados variáveis, até a rendição da Rússia, em 1918.

A guerra nas outras frentes
Nos Bálcãs, após duras lutas, tropas austríacas, búlgaras e alemãs ocuparam a Romênia e a Sérvia. A Itália entrou na guerra do lado da Entente em maio de 1915, abrindo a frente alpina. Lá, desenvolveu-se também a guerra de trincheiras. Em outubro de 1917, os italianos foram derrotados por tropas austríacas e alemãs. No Oriente Médio, a Inglaterra incitou a sublevação de tribos árabes contra os otomanos. Entre 1915 e 1917, as colônias alemãs na África foram ocupadas por tropas francesas, belgas e britânicas. No Pacífico, o Japão entrou na guerra contra a Alemanha para tomar suas colônias.

A guerra no mar
A superioridade naval da Tríplice Entente decidiu a luta no mar. Após uma série de batalhas navais no Atlântico e no Báltico, a Inglaterra conseguiu derrotar a frota alemã e continuou dominando os mares do mundo.

Os alemães utilizaram submarinos para cortar os suprimentos coloniais da Entente. A ação dos submarinos atingiu a navegação comercial britânica e de outros países neutros. Em fevereiro de 1917, o governo alemão declarou a guerra submarina a todos os navios que carregassem suprimentos para o inimigo, ou seja, a Inglaterra. A maior vítima dos ataques alemães foram os Estados Unidos Estados.

Os Estados Unidos entram na guerra
O ataque aos navios norte-americanos provocou enormes perdas materiais e humanas, afetando profundamente os interesses comerciais dos Estados Unidos. Em abril de 1917, os Estados Unidos entraram na guerra contra a Alemanha. Vários países latino-americanos, entre eles Cuba, Panamá e o Brasil, adotaram a mesma atitude.

A intervenção norte-americana na guerra foi decisiva para a vitória da Entente.

As sociedades em guerra
A Grande Guerra afetou a vida das populações civis dos países envolvidos. A economia dos países em guerra se transformou profundamente durante o conflito. Entre 20% e 40% da população masculina adulta foi recrutada para servir nas Forças Armadas. Mulheres e crianças compensaram a falta de mão-de-obra nas fábricas e no campo.

As fábricas se dedicaram quase que exclusivamente à produção de armas e equipamentos militares. As vias de comunicação - estradas e ferrovias - serviam prioritariamente aos exércitos locais ou inimigos. Em alguns lugares, foi adotado o trabalho obrigatório nas indústrias de material bélico.

O entusiasmo inicial, devido em grande parte à propaganda, transformou-se em desencanto e desespero. Deserções, motins, greves e protestos tornaram-se rotina. A frase do escritor alemão Erich Maria Remarque exprime bem o momento: “Se não chega a paz, chegará a revolução”.

Em 1918, o exército alemão assinou a rendição na cidade francesa de Compiègne. Saldo da Primeira Guerra Mundial: 8 milhões de mortos e 20 milhões de feridos.

A Conferência de Paz
Em janeiro de 1919, realizou-se uma reunião para discutir as condições da paz. Os vencedores da guerra não entraram em acordo quanto ao tratamento a ser dado à Alemanha, principal potência derrotada.

A França queria aniquilar completamente o poderio alemão. A Inglaterra pretendia manter o “equilíbrio europeu”: pregava a existência de uma Alemanha unida e desarmada. A Itália se fixou na discussão sobre as fronteiras a serem estabelecidas no norte.

As condições impostas à Alemanha no pós-guerra foram duras: o país ficou desarmado e a região do Sarre foi ocupada militarmente. Além disso, teve de pagar uma pesada indenização pelos custos da guerra e perdeu todas suas colônias. Cedeu a Alsácia e Lorena para a França.

Outros desdobramentos dos tratados de paz de foram os seguintes:

  • A Polônia voltou a ser um Estado livre, e o porto de Gdansk foi declarado cidade livre;
  • A Áustria foi dividida. A Hungria tornou-se independente;
  • Os eslavos do sul criaram a Iugoslávia. Os eslavos do norte se agruparam na Tchecoslováquia;
  • A Turquia perdeu a maior parte de seus territórios para a França e a Inglaterra, restando-lhe apenas o domínio sobre a Ásia Menor;
  • A Rússia perdeu os países do Báltico - Estônia, Letônia, Lituânia e a Finlândia -, que se tornaram independentes;
  • Em 1919, criou-se a Sociedade das Nações, organismo internacional encarregado de resolver as disputas internacionais e de manter a paz mundial.

Apesar de ser um dos grandes vencedores da guerra, os Estados Unidos optaram por uma política isolacionista no plano internacional. A Sociedade das Nações, idealizada pelo presidente norte-americano Woodrow Wilson, não contou com a participação dos Estados Unidos.


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