A violência e o processo histórico de produção e reprodução humana e da sociedade


Por Daniel Ricardo de Oliveira

A violência é uma temática presente em diversos estudos das ciências humanas e sociais, não somente na contemporaneidade, mas desde tempos remotos, talvez devido a sua presença multifacetária de difícil combate em todos os períodos na história da humanidade. 

É evidente que não se pretende esgotar um tema tão complexo, são trazidas apenas algumas inquietações quando se articula o ser humano e a violência, mas principalmente, como o processo histórico de transformação da sociedade recebeu impulsos violentos e como ela aparece em forma de força motriz das revoluções. 

Pensar o ser social em sua natureza, realizando uma aproximação com a violência, gera indagações como as seguintes: o homem por ser um animal, é dotado de violência, ou essa é um produto da sociabilidade humana, que possibilita sua produção e reprodução? E ainda, se for inerente ao humano, porque não desapareceu com o aumento do desenvolvimento cognitivo e a capacidade perceptiva que ampliam os níveis de compreensão, determinando comportamentos ético-morais? Ou então, o ser humano não nascendo com a violência em si, a desenvolve para sua sobrevivência, mas como permanece na contemporaneidade, de formas cada vez mais complexas e específicas, mesmo com todo o avanço alcançado, tanto no sentido econômico, como político e social? 

Para estudar a temática “violência”, torna-se prudente não deixar de considerar o campo social, mesmo porque ela somente aparece como tal, se for direcionada ao outro, transformando sua natureza, mesmo que contrária a vontade alheia, ou seja, está diretamente ligada ao processo de compreensão do outro, sendo um ser da mesma espécie ou não, considerando, até mesmo um objeto inanimado dentro de uma perspectiva global, uma visão de mundo, ainda que não se explicite essa compreensão da mundialidade em sua totalidade. 

Na tentativa de responder às perguntas apresentadas, faz-se importante contextualizar o objeto estudado em suas especificidades. 

A violência surge como um produto de relações desenvolvidas, do homem com a natureza ou entre si, sendo grande viabilizadora da sobrevivência do ser humano em determinados contextos e períodos, se complexificando para além das primeiras necessidades humanas, de acordo com as mudanças na sociedade, atendendo a interesses diversos. 

Desta forma, diante da necessidade de sobrevivência, ou na ausência de bens disponíveis à coletividade, o homem natural, para manter-se em condições de se produzir e reproduzir faz valer sua animalidade através da violência para garantir sua conservação. 

Todavia, com a satisfação de suas necessidades essenciais, tantas outras vão surgindo, na dialética do desenvolvimento das forças produtivas e pelas relações sociais contraídas. Assim, as necessidades são transformadas e ampliadas, produzindo a sociedade em suas formas mais complexas e o homem como produto dela. 

Por isso a violência atravessa as diversas formas de sociedade, se fazendo presente em todas elas, desde a transformação do homem pelo trabalho em sua gênese, até a realidade do trabalho que torna um fim em si mesmo na contemporaneidade, nas guerras ditas santas, que não purifica ao ateísmo do holocausto. É, portanto, uma das forças utilizadas para conquistas e satisfações. 

Não se trata de uma apologia à violência, exaltando-se a conquistas sangrentas da barbárie, pelo contrário, procura-se demonstrar nesse artigo, na ausência de qualquer juízo valorativo, que o processo de produção e reprodução do homem também é possibilitado pela violência e suas conseqüências. 

Considerações finais 
A violência é algo inerente ao humano, inato ou, assim como o próprio homem, é também produto da ação dialética do ser com a natureza e fruto do desenvolvimento das relações sociais? E ainda, qual o papel da violência do processo de produção e reprodução da sociedade, desde os modelos mais “primitivos” à contemporaneidade. 

É importante ressaltar, que não se pretende em um artigo responder todas essas indagações e “dar conta” de interpretar o real em suas várias articulações, nesse complexo emaranhado de situações que permeiam o cotidiano de cada ser social. 

Porém, é possível realizar algumas reflexões que fundamentam as inquietações suscitadas a partir da temática proposta para estudo; a violência! 

Ao se analisar, por exemplo, os períodos escravocratas, feudal e o próprio capitalismo, que são violentos em suas formas de apropriação e expropriação, é possível afirmar que inerentes a eles, há ao menos uma semelhança, o cerceamento da liberdade humana, mesmo que tragam em si, especificidades de cada conjuntura. 

Esse aprisionamento, dentro da perspectiva do materialismo histórico e dialético é violento por si só e não foi realizado por vias pacíficas, em momentos de transições naturais, pelo contrário, ocorre pelo domínio violento de uma classe sobre a outra, em condições materiais - portanto reais - de produção. 

As várias facetas da violência contra a natureza humana, do humano genérico, por interesses de uma classe dominante, possibilitam a supressão do homem pelo homem. 

Por não ser inato do ser humano, mas sim da sociedade, a violência não desapareceu com o desenvolvimento das forças produtivas, ou mesmo, pelos aspectos culturais e morais de cada realidade, porque na dialética da materialidade em condições reais e profundas o ser social está em constante transformação, desenvolvendo novas necessidades e diversos mecanismos para sua satisfação. 

Essa luta de indivíduos ou de classes se dá pela subordinação ao poder das coisas e pelas necessidades a partir delas construídas e cultivadas. Assim, as condições indispensáveis para se afirmar os interesses de uma classe, muitas vezes, são criadas por meio de uma violência brutal. 

Contudo, com certeza torna-se necessário um maior aprofundamento na discussão sobre violência, na análise histórica da sociedade em cada conjuntura e como essa força motriz opera nos diversos contextos sociais. Não se apresentou verdades e mentiras nesse artigo, apenas inquietações que possibilitarão outros estudos. 


Disponível em Domínio Público




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