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O “lulismo” e o cenário político brasileiro


As eleições de 2010: uma próxima etapa no reconhecimento do “lulismo”.

A chegada de Lula ao poder empreendeu uma transformação histórica muito significativa a um imenso número de pessoas que apoiavam a chegada de um partido de esquerda ao poder. As lutas provenientes dos tempos da ditadura militar e as limitações da atuação política de setores já instalados no poder formam o mais amplo campo de situações históricas que determinaram a vitória eleitoral do Partido dos Trabalhadores no ano de 2002.
Um pouco antes disso, sabemos que a formação da base política do partido ao qual Lula representava tinha grande influência e atuação junto aos sindicatos e aos movimentos sociais organizados. De fato, essa atuação ainda existe e fundamenta a aposta de que a candidatura de Dilma seja politicamente viável. Por outro lado, devemos salientar que essa mesma aposta também se consolida por meio do chamado “lulismo”, um fenômeno recente na história política do país.
Em termos mais gerais, podemos atribuir essa situação à eficiência administrativa que marcou a atuação do PT antes da chegada à presidência. O triunfo em grandes capitais e o oferecimento de programas inéditos fortaleciam a ideia de que o Partido dos Trabalhadores tinha um projeto mais amplo e eficaz, atraindo de modo competente uma parcela das classes médias que ainda viam com desconfiança esse tipo de transformação ou que já sentiam algum desgaste na atuação política de partidos mais tradicionais.
Ao lado da eficiência administrativa, devemos também salientar que o antigo jogo polarizador entre “esquerda” e “direita” foi perdendo o sentido na medida em que o PT e o próprio Lula abriram espaço para diversas inflexões em seu discurso e atuação. Historicamente, a esquerda teve no Brasil e em outras parcelas do mundo a função de criticar efetivamente o funcionamento do sistema capitalista e oferecer outras propostas que tivessem, ao menos, o desejo de buscar uma transformação mais profunda.
Com o passar do tempo, o colapso das experiências socialistas em outras regiões do mundo tiveram peso determinante para que os partidos de esquerda, fora e dentro do Brasil, buscassem uma guinada que respondesse a ineficácia observada em outros contextos. Ao mesmo tempo, o interesse em atingir amplas parcelas da sociedade acabou sendo um outro fator, conscientemente ou não, necessário para que o antigo anseio pelo poder viesse a se concretizar em um espaço de tempo mais curto.
No momento em que Lula chegou ao poder, vimos que a capacidade de ampliação das bases de sustentação política, social e partidária, estabeleceu a chegada do novo presidente ao poder. De certo modo, essa situação não implicava em um avanço da democracia, já que um mesmo comportamento fundamental aparece entre o eleitorado, desde a volta do regime democrático: as legendas e ideologias perderam espaço para a aposta em uma figura carismática que se enquadra aos anseios do momento.
Não por acaso, vemos que os bons resultados do governo de Luis Inácio Lula da Silva conseguiram superar os escândalos de corrupção que derrubaram figuras centrais do PT e abalaram a fidelidade de alguns que enxergavam o partido antes do presidente. Essa seria a primeira manifestação vigorosa do tal “lulismo”. A outra aparece agora, quando a candidatura de Dilma Rousseff assenta sua campanha na promessa de estabelecer a continuidade das conquistas que marcam a presença de Lula no poder.
Em breve consideração, podemos ver que o “lulismo” surge como uma tendência que agrega o projeto de chegada do PT ao poder e o reconhecimento de um determinado comportamento do eleitorado nacional. Enquanto isso, um grupo heterogêneo de articulistas consome seu tempo tentando reavivar os antigos parâmetros de luta entre “esquerda” e “direita” que mais lembram o cenário de uma ditadura militar que não mais existe.
Vemos então uma irreal guerra de trincheiras, onde se tenta vender uma cisão de ideologias que há muito tempo não se manifesta nos espaços de atuação política. Para atestar isso, basta observar os últimos acordos políticos e chapas que se formaram nos últimos processos eleitorais ou nas alianças que determinaram a aprovação de certas leis. As diferenças de projeto e a própria discussão política foram sucateadas pelos resultados políticos imediatos da eficácia administrativa e financeira.
Projetando um futuro cenário sem Lula, poderíamos perceber com maior clareza a incapacidade que o PT e as próprias esquerdas teriam em lançar outras lideranças. Da mesma forma, os partidos de direita também não oferecem hoje uma opção de escolha que pudesse impactar imediatamente uma fatia expressiva da população. Sendo assim, o “lulismo” revela a existência de uma crise em que o exercício da democracia não equivale à criticidade necessária ao desenvolvimento da própria política.
Por Rainer Sousa
Mestre em História
Equipe Brasil Escola

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