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No Brasil, um registro único da história do Holocausto

Diário de Lore, escrito na Bélgica invadida pelos nazistas, revela genocídio judeu por meio de olhos infantis


A jovem judia alemã Lore Dublon tinha 13 anos quando começou a escrever um diário. Preencheu 28 páginas em um caderno, que foi guardado no baú da família por cerca de 60 anos. Em meio a preocupações pueris, emerge de suas linhas um documento histórico singular no Brasil. São páginas sobre fugas, descobertas, perseguição e ódio escritas em alemão e francês entre março de 1941 e 8 de janeiro de 1942, quando a família Dublon vivia na Bélgica, sob ocupação nazista.



Tiago Queiroz/AE


A jovem judia alemã, Lore Dublon


A pedido do Estado, o diário foi analisado por historiadores europeus, israelenses e brasileiros do Holocausto. "Tem interessante valor histórico e é representativo da experiência de um período", disse o professor titular de História Moderna da Universidade de Cambridge (Reino Unido), Richard J. Evans, um dos principais estudiosos do nazismo no mundo.


O diário deve ser peça de destaque do futuro Museu Judaico de São Paulo. Escrito a caneta tinteiro, ele revela uma garota sensível e bem-humorada, que mantinha uma horta de flores, colhia framboesas no bosque e era a segunda da classe na escola em Bruxelas. Fã da atriz Marika Rökk, foi homenageada com uma serenata por Bernard, um garoto da vizinhança por quem se apaixonara. No ano em que completou 14 anos, alguns amigos começaram a "partir". Primeiro Bernard, depois Anne Deutsch. A jovem lamentou profundamente o "sumiço" de Helmuth S., de 19 anos, o "primeiro homem" a cortejá-la. Ao diário, ela conta que o rapaz fora enviado a um "Lager" (campo de concentração) e que "não poderia mais vir".


Família. Lore Dublon nasceu em Erfurt, na Alemanha, em 26 de agosto de 1927. Era irmã de Eva, nascida seis anos depois, e filha do comerciante de sapatos Otto Willy Dublon e de Erna Dora Beermann Dublon. Tinha 13 anos e morava no número 57 da Rue de La Pastorale, em Bruxelas, quando escreveu as primeiras palavras no diário - um caderno forrado com tecido laranja, marrom e bege, lacrado por fecho metálico. Estava no início de seu "décimo quarto ano de vida", mas "tantas coisas já me aconteceram..." Era março de 1941, havia dez meses que a Bélgica fora ocupada pela Alemanha.

Na época, 70 mil judeus viviam no país. Escolher Bruxelas tinha explicação histórica e familiar para os pais de Lore: antes da ocupação alemã, quando chegaram à Bélgica, o país era indicado pela Liga das Nações como "local de acolhimento" para judeus. A outra razão era o bem-sucedido banqueiro Max Moda, parente da mãe da garota, que já vivia em Bruxelas e era conselheiro para cada decisão da família - mais tarde, foi também o "tio Mäxchen" ("tio Maxzinho", como Lore o chamava) quem encontrou o diário.


Lore era estudante dedicada. Em dois momentos, a menina de olhos claros mostra preocupação com as "provas trimestrais", quer continuar entre as melhores da classe. E vai bem: "três distinções, por bom comportamento, atenção e boas habilidades manuais", descreveu, em 9 de abril de 1941. Oito meses depois, ela conta os resultados finais: "Aprovação com louvor (...), continuo a segunda da classe."

Mas, no mesmo dia, 20 de dezembro de 1941, ela revela: "Provavelmente não voltarei ao colégio depois das férias, porque o ensino é obrigatório só até os 14, ou aos 16 anos." Na verdade, não havia escolha alguma: o que Lore vivia era a expulsão compulsória de todas as crianças judias das escolas belgas, imposta pelo governo de ocupação nazista naquele mesmo mês.


Foi também em 20 de dezembro que os nazistas começaram a registrar os judeus do país - como ocorreu com seus pais, Otto e Erna. A perseguição se intensificava: a palavra "judeu" devia constar nos documentos, não se podia mais exercer cargos oficiais nem editar livros. Como resposta ao ambiente de ódio, Lore se apega às raízes judaicas. Fala em virar "devota", entrar para a "Liga Sionista" e viver na Palestina com os avós. "O retorno à identidade judaica era resposta ao que via ao redor e, naquele momento, torna-se simbólica da consciência de grupo, com a qual também emergiram os judeus após o fim da guerra", disse a professora da USP Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do Arquivo Virtual do Holocausto (Arqshoah).

O historiador-chefe do Memorial do Holocausto Yad Vashem, em Israel, Dan Michman, destacou no relato o ponto de vista da criança, "voz sempre em movimento". "A última entrada, em 1942, é de grande importância. Questões como o amigo em um Lager, a fuga da Bélgica invadida pelos nazistas, a expressão pessoal desta menina que quer se tornar sionista e religiosa", disse Michman, especialista sobre o Holocausto na Bélgica. "Infelizmente, ela parou de escrever antes dos capítulos mais dramáticos, quando poderia analisar de forma mais madura. Ela foi, sem dúvida, talentosa."


Logo que fez 15 anos, em 17 de novembro de 1942, Lore foi também registrada pelos nazistas. Era 8 de janeiro de 1944 quando foi enviada com a família para o campo de trânsito de Malines, um entreposto para os campos de extermínio - dos 25 mil judeus que passaram pela instalação, só 1,2 mil sobreviveram. Uma semana depois, os Dublons foram mandados para a Polônia. Os arquivos judaicos de Bruxelas e Jerusalém consultados pelo Estado completam aquilo que o diário cala: a morte em Auschwitz de toda a família.




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